JOSE MARTINS VAZ
Missionario do Espirito Santo

FILOSOFIA TRADICIONAL DOS CABINDAS

Atravez dos seus testos de potes
Proverbios, Adivinhas, Fabulas

VOLUME I

CABINDA   MCMLXIX

DEDICATÓRIA

AS BOAS GENTES DE  CABINDA

Aos seus naturais
Em preito de gratidão pela sua amizade
Em homenagem sincera as suas qualidades
Cívicas,
Intelectuais,
Morais,

Aos europeus,
Que nele vivem tão irmanados aos seus irmãos
Em vista a um melhor conhecimento
Daquelas terras,
Daquelas gentes;

Aos missionários do Espirito Santo
Neste primeiro Centenário
Da sua presença apostólica
Em terras de Cabinda

Dedicamos o presente estudo:  

O Autor, Cabinda 8 de Dezembro de 1966


 
| FILOSOFIA TRADICIONAL DOS CABINDAS INTRODUÇÃO


| A) ANTES DO CASAMENTO CAPITULO I - RESPEITA A MULHER
 

| B) ANTES DO CASAMENTO CAPITULO I - SABER ESCOLHER
 

| CAPITULO II - O CASAMENTO E' UMA SORTE
 

| CAPITULO III - O CASAMENTO TEM AS SUAS DIFICULDADES
 

| CAPITULO IV - SUBMISSÃO E RESPEITO AO MARIDO
 

| CAPITULO V - INDISSOLUBILIDADE DO MATRIMONIO

 

| CAPITULO VI - CASA QUE J TENS IDADE

 

| III PARTE - TESTOS OFERECIDOS PELO HOMEM A MULHER

                   

| CAPITULO I - SOU FELIZ!...

 

|CAPITULO II - S OBEDIENTE...

 

| CAPITULO III - ESTOU VELHO, MAS CONTINUEMOS A VIVER JUNTOS ...
 

|CAPITULO IV - SOMOS MAUS, MAS FAAMOS AS PAZES
 

|CAPITULO V - QUEM TORTO NASCE...
 

|CAPITULO VI - ANDAS MUITO LEVIANA... CUIDADO!...
 

|CAPITULO VII - TENHO OUTRA MULHER ... MAS S COMPREENSIVA ...
 

 

UMA PRIMEIRA PALAVRA

Quando em 1948 aportámos a Cabinda, ficámos bem impressionados com os habitantes, no primeiro contacto que com eles tivemos.
Depois, durante dez anos que lá vivemos, nunca tivemos motivo para modificar essa impressão inicial.

Apenas chegados, ouvimos falar nos seus Testos de potes.

Naquelas paragens, o missionário é pai, pastor, amigo. Até juiz, nas questões mais diversas. Assistimos embevecidos a esses pleitos, em que a conversa, a argumentação, a sentença são à base de Provérbios.

Nas aldeias sertanejas éramos recebidos como amigo. Organizavam "sessões" em nossa honra:
As crianças cantavam, dançavam e... despicavam-se no desvendar de Adivinhas...

Os adultos tomavam parte na narração cantante e animada de Fábulas.

Depois de termos trabalhado intensivamente como missionário e como «estudioso», pela sua cultura, resolvemos publicar estas várias facetas da sua filosofia tradicional.
 
 

PREFÁCIO

Filosofia Tradicional dos Cabindas é um estudo muito completo do que se convencionou chamar a literatura oral do povo em epígrafe, ofertado pelo Padre José Martins Vaz ao leitor interessado.

Compreende ele a interpretação de uma grande série de testos de potes, seguida de colecções de provérbios, adivinhas e fábulas.

Foi em 1946, que ouvimos falar, pela vez primeira, nos testos de potes dos Cabindas. O colega, que deles nos falou, deu nos então uma explicação resumida do significado dos mesmos.

No ano seguinte vimos nas bagagens de outro missionário um certo número desses objectos.

Agora, de passagem por Lisboa, tivemos o prazer de ler o presente estudo sobre o mesmo. tema, que julgamos ser o primeiro a publicar-se.

O que caracteriza essencialmente os testos não é o facto de serem esculpidos e terem um certo valor artístico, mas sim a particularidade de, por meio deles, se transmitirem mensagens, se assim podemos dizer. São como que «cartas» dirigidas a alguém, segundo a expressão do autor da obra.

Sabíamos que em varias partes da África existe a transmissão de mensagens curtas e estereotipadas por meio de som - conforme a oscilação e a sequência desses sinais auditivos - tirados do tambor ou do batuque.

No caso presente, não se trata de sinais emitidos por membranas. Estamos em presença de sinais visuais, expressos, através de figuras gravadas em madeira, que querem dizer alguma coisa: constituem os elementos de uma transmissão de ideias. Nesta originalidade de expressão, não conhecemos fenómeno similar, no campo da etnografia.

Tal arte parece aproximar-se da escrita ideográfica dos chineses e também da hieroglífica dos egípcios. Talvez se possa chamar pictografia - no sentido lato do termo - destinada a transmitir um número restrito de assuntos.

Isto quanto à caracterização e classificação gerais.
Mas desçamos ao concreto.
Antes de mais, convém observar que, para pôr em harmonia o significante e o significado - ou em palavras mais simples -, para tirar um sentido das figuras esculpidas nos testos «falantes», é necessário proceder com muita arte e grande sabedoria, e conhecer perfeitamente a relação existente entre as figuras e os provérbios, dos quais o povo, em estudo, possui um tesouro muito variado.

E' praticamente impossível conseguir tal decifração sem recorrer aos velhos do povo de N'Goyo, Kakongo e Loango, mais conhecido por Cabinda, uma vez que são os únicos depositários validos e orais da sua cultura.

Foi graças ao seu auxílio que o Padre José Martins Vaz pôde reunir uma colecção de 276 peças e, o que é mais importante, interpreta-las. Para isso teve também de entrar nos meandros da etnografia local.

Tal auxílio dos anciãos torna-se ainda mais indispensável, quando se, sabe que, há cerca de 70 anos, caiu em desuso a oferta mútua de testos, o que equivale a dizer, o emprego da engraçada e singular linguagem pictórica. Tanto mais é de felicitar o autor por ter arrancado ao olvido um dado etnográfico tão significativo.

Cada figura apresenta uma locução proverbial, contendo muitas vezes uma admoestação ou sentença moral.

Como se opera, partindo de uma imagem, tal evolução de ideias, no espírito de um Cabinda?

As vezes, é directamente pelo objecto representado. Por exemplo, um cogumelo. A sua presença quer dizer: onde se comem cogumelos é sinal que há uma rapariga que os foi buscar ao mato. Por extensão temos aqui representada a grande soma de trabalhos e canseiras da mulher Cabinda.

Outras vezes, porém, as figuras sugerem uma locução metafórica, o que é muito consentâneo com o pensamento pouco discursivo - diga-se, para evitar mal entendidos - directamente discursivo desses povos.

Exemplo: o esquilo e a árvore com uma toca.

Sentido directo: quando chove, o esquilo tem onde se abrigar.

Sentido interpretativo: quando a mulher é maltratada pelo marido ela encontra protecção junto da família.

Antes de continuarmos estas considerações, seja-nos permitido referir um modo de proceder, um tanto ou quanto análogo, não na forma de transmissão, mas pelo emprego de metáforas:

No planalto da Huila, entre a etnia dos Nhanecas, quando se quer-verberar um defeito de algum vizinho, que tenha repercussões sociais desagradáveis, existe o costume de dar a um filho, ou a um cachorrinho, um nome que é a primeira, ou as duas primeiras palavras de um provérbio, tendo este muitas vezes sentido caustico. Assim cada vez que se chame pelo filho, ou pelo cão, o visado terá de "engolir a pílula".

Na série de rifões analisados pelo Padre António Silva há um em que a carapuça se aplica à mulher que foi visitar a «família», sem trazer nada para casa.
O provérbio em questão é este: «A mulher foi à floresta dos omipapas (árvores que dão lenha muito boa para o lume) e nem sequer trouxe uma acha.»

O cachorrinho vingador terá o nome, posto pelo marido, de «foi aos omipapas». (Vide Revista Portugal em África»- 1947-Pag. 270).

O estudo ora publicado sobre os bilhetes esculpidos dos Cabindas, apesar do seu valor ímpar e do seu sugestivo interesse, não deixa inteiramente satisfeito o leitor, com certa curiosidade etnográfica, pois, apesar de se referir a muitos aspectos da vida deste povo ele pretende ser uma simples síntese ou ficheiro, no dizer textual do autor, exige um trabalho mais completo e desenvolvido, mais metódico, abrangendo todos os sectores das manifestações de ordem material e mental desta etnia. Esperamos que o autor nos mimoseie brevemente com esse estudo, por ele já iniciado em vários artigos.

Dada a sua condensação etnográfica - dentro do espirito que determinou a sua contextura - sugeríamos alguns pontos que nos parece deverem ser aprofundados e desenvolvidos em estudos ulteriores:
 

1 - Embora se fale em poligamia, não notámos nos comentários da imagem uma única alusão clara a este sistema familiar tradicional.

Como é sabido, num lar polígono, a circunstância de o homem acrescentar à primeira mulher mais outras é coisa natural que, em si, não pode dar azo a melindres, por parte da legítima esposa.

Isto não quer dizer que não surjam, numa casa daquelas, rivalidades e ciúmes entre as esposas e entre estas e o homem, mesmo quando ele faz pelo melhor, para distribuir os seus favores pelas várias mulheres, prática que a lei consuetudinária determina, em geral, com bastante rigor.

Quanto a nós, não enxergámos na obra vestígios de conflitos sérios semelhantes aos que observámos, por exemplo, em outras partes de África ,onde eles frequentemente perturbam a harmonia de uma «casa grande». Fala-se sim, e com certa insistência, da revolta que se apodera da legítima esposa, quando o marido quer introduzir em casa, ou anda ostensivamente por fora, com uma "concubina". Esta porém, segundo o contexto, não parece passar de amante.

2 - Em certa altura adverte-se que a estrutura familiar dos Cabindas obedece à «lei do matriarcado», em que o verdadeiro chefe da família é o tio materno, o irmão, mais velho da mãe. Esta nota é importante, embora conviesse ser mais amplamente explicada.

Hoje em dia, prefere-se a expressão «sistema, matrilinear» por se julgar mais expressiva.

3 - O «alambamento» de há 70 anos não teve, quanto a nós, o aspecto excessivamente comercial de que se revestiu nos últimos decénios. Alias, neste ponto observa-se um fenómeno quase geral na África negra: o «dote» deixou de ter aquele valor quase simbólico, uma espécie de compensação à família da noiva, pela perda que sofre e também um factor de consolidação do laço matrimonial, que no passado o caracterizava fundamentalmente.

Porém, algumas etnias em África ficaram fiéis à modalidade tradicional do "alambamento".

4 - Em artigos que o autor publicou na Revista "Portugal em África" especialmente nos anos 1958-1959, encontrarão os leitores um distinção judiciosa entre feitiço, feiticeiro, feitiçaria, amuleto, talismã, etc., o que nem todos os etnologos conseguem. No pressente estudo omitiu tais dados por razões de brevidade.

Varíadíssimas vezes temos insistido na diferença real existente entre os termos mencionados. É que, na verdade, não se podem "meter no mesmo saco" um adivinho-curandeiro e um suposto ou mesmo «oficialmente» convicto enfeitiçador. Verdade seja que Cabinda parece ser uma das regiões da África em que mais abundam objectos tidos por «feitiços», sobretudo sob a forma de estatuetas mais ou menos toscas.

É sabido que no campo das crenças e práticas religioso-magicas - como pessoalmente gostamos de escrever - reina bastante confusão, mesmo entre etnologos. Quanto a nós, esses vocábulos deviam evitar-se ou então dar-se deles uma definição tão precisa quanto possível para evitar confusões nos menos familiarizados com o seu real conteúdo.

Os provérbios coligidos e anotados são 569: Que saibamos, é a selecção de maior número de aforismos depois da publicada pelo Padre José Francisco Valente e um pouco mais extensa que a de Oscar Ribas, no seu livro "Missosso".

Os primeiros fazem parte do tesouro sapiêncial da grande etnia dos Bundos (ovimbundu) e os segundos do grupo étnico dos Ambundos. .

O que confere uma graça especial ao falar sentencial dos Bantos é o recorrer quase constante ao emprego da metáfora. Os Cabindas não fogem a esta regra. No entanto, não se nota entre eles o uso tão frequente de locuções paralelas - aqui convém sublinhar que o paralelismo é a regra fundamental da poesia banta - como sucede, por exemplo, em outras etnias de África .

Pouco diremos das 110 adivinhas, que no género se assemelham às dos outros povos bantos.

As perguntas caracterizam-se novamente por locuções de sentido figurativo.

 A solução proposta nas adivinhas não é sempre fácil, porque os dois termos de comparação parecem-nos muitas vezes pouco concordantes com a nossa mente, moldada em categorias aristotélicas. Mas, para quem tenha penetrado nos seus segredos, não deixa de as achar dignas de fazerem parte do corpo da sabedoria popular mundial.

As vinte fábulas aqui publicadas representam mais uma pedra colocada no grande edifício, cuja construção está longe de ter chegado ao seu termo, de recolha e publicação dos contos populares das gentes de Cabinda.

Desde que Héli Chatelain pôs um fundamento muito sólido a esta obra, pela publicação de 50 narrativas em quimbundo (kimbundu) em 1897, não se pode afirmar que o trabalho construtivo tenha avançado num ritmo acelerado, antes pelo contrário. E é pena, porque quanto mais tempo se espera na continuação desta tarefa, maior será o inconveniente de encontrar narrações já fortemente sincretistas e até acuIturadas, facto que para um estudo da «literatura» autênticamente banta, não deixa de ser prejudicial.

O binómio antagónico de animais, uns espertos e outros obtusos, pode considerar-se tema fabulístico universal, embora não seja sempre a mesma espécie de animais a desempenhar estes papéis. Mas, regra geral, evidencia-se esta constatação: não são os mais corpulentos, ou fisicamente valentes que passam por ser mais inteligentes, mas antes os pequenos e humildes, como a lebre e o cágado.

Nalgumas fábulas Cabindas intervém o que se chama em português "almas do outro mundo". Examinando as narrativas de perto, estes entes desempenham um papel semelhante ao que se atribui noutras etnias aos ma-kishi, termo que H. Chatelain mantém no texto sem o traduzir.

Oscar Ribas, que publicou uma série de contos no seu volume «Missosso», emprega, ora o vocábulo kimbundu «di-quixi», ora a versão portuguesa «monstro». É claro que se trata de entes algo fantasiados, duma essência muito fluida, para os quais não há designação e equivalente nas línguas europeias.

O que é certo é que a raiz. «nkisi» se encontra na base do vocábulo empregado numa série de línguas Africanas; quase todos os tradutores optaram pelos termos: monstro ou papão.

Em Cabindes a dificuldade de achar um equivalente aproximado em português é maior porque neste idioma nkisi significa uma estatueta consagrada a um espírito.

Seja como for, convinha definir mais nitidamente a locução «almas do outro mundo».

Resta fazer observar que uma ou outra narrativa se apresenta já aculturada, por exemplo, a da «Menina com três namorados ausentes na Europa». É um fenómeno que não deixa de ter interesse para quem deseja seguir a evolução da literatura oral destes povos.

Concluindo, diremos que consideramos o presente estudo sobre a Filosofia Tradicional dos Cabindas com muito valor na bibliografia etnografica de Cabinda.

Cabinda, Julho de 1969

  CARLOS ESTERMANN

 

FILOSOFIA TRADICIONAL DOS CABINDAS

ATRAVÉS DOS SEUS TESTOS DE POTES DE CERÂMICA
(MA BAIA MA NZUNGU)
 

INTRODUÇÃO

O estudo dos Testos atraiu-nos logo.

Afinal não éramos os primeiros a descobrir a novidade. Já o Padre Bittermieux, que por Cabinda passara de fugida, publicara, em tempos, um pequeno estudo sobre o assunto, que infelizmente nunca chegámos a ler.

Entre os missionários em actividade em Cabinda, também não fomos os primeiros. Os Padres José Troesch, Joaquim Martins, Francisco Vissers, João Vissers, Manuelino de oliveira, tinham-nos, precedido no apostolado e na recolha de exemplares.

Na nossa primeira viagem apostólica também conseguimos alguns. Pedimos explicações aos mais velhos; e pela interpretação sumária que então nos deram, nasceu em nós o gesto de tal estudo.

Vimos, logo de inicio, uma grande dificuldade : nada poderíamos saber sobre o seu significado, sem primeiro conhecermos a fundo a alma nativa. Iniciámos então dois estudos interdependentes: o estudo da sociedade local e a decifração dos testos.
Deste modo conseguimos a explicação das 276 peças de que se compõe a nossa colecção, a maior que existe, segundo cremos.

O estudo que hoje damos por terminado ocupou-nos durante dez anos, numa actividade intensa, pesquisas conscienciosas, perguntas, diálogos sem, contar com os velhos da região, os únicos que podiam dar-nos algumas luzes. Com os nossos conhecimentos da sociedade nativa, as deduções lógicas que podíamos fazer, e sobretudo com as explicações fornecidas pelos referidos velhos, conseguimos a interpretação de todas elas.

Admitimos que possa haver, para um ou outro provérbio, explicação diferente da nossa.

No tocante à letra dos mesmos, sobretudo nessas terras se aplica o rifão: «cada, terra tem, seu uso ... ».

Acresce ainda que os Cabindas não têm linguagem escrita própria e, mesmo hoje, os livros escritos em Cabindes - ou Oio, língua local - mostram a índole da língua pátria dos autores, missionários na sua maior parte.

Escrevemos o Cabindes como o captámos, procurando, tanto quanto possível, seguir, na sua grafia, a índole da língua portuguesa.

Não temos, no presente estudo preocupações linguísticas, botânicas, científicas. Faltou-nos tempo para isso. Limitamo-nos ao simples campo etnográfico.

Pode acontecer que um ou outro testo venha a ter interpretação diferente da nossa, por parte de algum entendido no assunto. Mas o que podemos assegurar - por ser convicção nossa e de outros que já nos leram (1) - é que o presente trabalho não contém erros substanciais.

(1) Aproveitámos a passagem por Lisboa dos Padres José Troesch e Alberto Riehl, missionários com 30 e 40 anos respectivamente de actividade apostólica em Cabinda. Exceptuando pequenos pormenores, que gostosamente aceitámos, concordaram com tudo, o que é para este trabalho uma grande recomendação.
 

Desde 1954 que temos a nossa colecção, e a sua explicação que agora apenas retocamos, no Museu do Instituto Superior Missionário de Carcavelos. Ai nos consultaram livremente alguns estudiosos, certamente com proveito...

Um caso entre vários:

Em 1964 acordámos numa publicação conjunta dos Testos de potes com outros estudiosos do mesmo assunto.

Para tal, entregámos o nosso manuscrito, sem termos recebido deles uma simples linha...

Volvidos dois anos, quisemos saber novas. Foi-nos dito então que iriam publicar, individualmente, um trabalho sobre Provérbios e só depois nos debruçaríamos, colectivamente, sobre a projectada publicação dos testos.

Perante tal «revelação» resolvemos fazer, a sós, a publicação dos nossos testos. Para isso dirigimo-nos ao Terreiro do Paço, acompanhados por um nosso confrade (em 1966) e confiámos à Agência-Geral do Ultramar o nosso manuscrito, levemente retocado, bem como os originais referentes aos Provérbios, Adivinhas, Fábulas, por nós coligidos nas terras de Cabinda e que constituirão o II Volume da nossa obra.

O presente estudo apenas beneficiou - de forma decisiva, substancial - do intercâmbio etnográfico, que, durante dois anos, mantivemos com o Rev. Padre Francisco Vissers. Guiados pela sua mão de mestre iniciámos os nossos primeiros passos etnográficos. Gratos lhe estamos por isso.

A nossa gratidão estende-se ainda aos numerosos "velhos Cabindas» que paciente e amigavelmente nos confiaram os arcanos das suas tradições.

Não é uma explicação exaustiva sobre o assunto. Pretende apenas ser um ficheiro, que, segundo cremos, é o primeiro a ver a luz da publicidade.

Como ficheiro que é, contém apenas tópicos, a doutrina despida de toda a literatura - Pois quisemos deixar ficar toda a simplicidade da narrativa local - e as explicações etnográficas julgadas indispensáveis à interpretação dos Testos, uma - vez que baseados na explicação dos mesmos, se poderiam abordar tantos e tantos assuntos etnográficos  locais.

COMO NASCEU A PRESENTE COLECÇÃO

Logo que adquirimos os primeiros exemplares, tentámos a sua explicação. Para uso pessoal. Depois fomos adquirindo mais. Aperfeiçoámos a sua explicação, que hoje tomamos pública.

Havia testos de barro e de madeira não muito rija, para facilidade de confecção. Aqueles depressa se partiram e quase desapareceram. Estes resistiram mais, porque os condimentos alimentícios, o calor e o fumo os iam conservando.

Talvez por falta de uso, ou porque expostos à chuva e ao sol, alguns dos exemplares que conseguimos, já estavam meio carcomidos; outros partidos, ou incompletos por algumas figuras terem desaparecido. Junto dos velhos Cabindas conseguimos «recompor» o assunto, saber quais as figuras desaparecidas. Depois para não ficarmos expostos à sua deterioração completa, mandamo-los substituir a um nativo, artista de gema, e que em tempos fizera muitos, quando novo, a pedido de esposos desavindos

Há também cópias de originais pertencentes a nativos, mas que não queriam desfazer-se deles. E porque muitos exemplares, pertença de europeus, nos passaram pelas mãos para os explicarmos, ou nos pronunciarmos sobre o seu valor, de alguns mandámos fazer cópia.

 Esses 101 testos - dos 276 que formam a nossa colecção - não são originais, mas são exactos. Verdadeiros e autênticos «fac-símile» dos que tivemos ou vimos. Para facilidade de identificação indicamo-los, no presente estudo, com «R» (Representativo), logo a
seu ir ao seu número de ordem. E incluímo-los no presente estudo, porque autoridades no campo etnográfico lhes reconheceram valor, e nos convenceram a publicá-los.

Para se parecerem com os originais entregámo-los às Cabindas, e também aos alunos da Missão Mas não foram tão cuidadosos como as suas avós nem estavam acostumados a usa-los; por isso alguns sofreram os efeitos do calor e do fogo. Depois, a pressa em os tornar «parecidos» com os originais deu, como resultado, ficarem alguns um pouco queimados.

SIGNIFICADO E VALOR DOS TESTOS

Quem não conhece as tampas, ou testos com que se tapam as panelas e caçarolas das nossas cozinhas? Os Cabindas, desde tempos imemoriais, usavam panelas de barro e não conheciam as de metal.

Como tampa usavam verdadeiras rodas de barro, ou madeira. A principio, talvez sem qualquer enfeite na parte superior. Depois, para facilidade de manejo, começaram, a faze-las com qualquer adorno saliente. Com o tempo, foram-lhe juntando outros arabescos, ao sabor
do artista e da sua Inspiração, de momento. E assim nasceram os testos de Cabinda, enfeitados com uma verdadeira colecção de figuras de pessoas, coisas e animais, esculpidos  na própria tampa, em alto relevo.

Eis a explicação do aparecimento dos Testos e do seu uso «natural».

Podemos dizer que há cerca de 60-80 anos que deixaram efectivamente de ser usados. Só alguns velhos os lêem e entendem, guardando-os ciosamente, como elos a prende-los aos seus belos tempos de juventude, e tendo-os na maior estimação, por serem ofertas que lhes foram feitas, ou que os seus antepassados usaram e lhes legaram.

Mas aqueles "bonecos animados" devem ter um significado. Têm-no de facto, rico de beleza e simbolismo. Como toda a humanidade, o Cabinda tinha os seus conceitos a expressar, os seus conselhos a dar, as suas questiúnculas e rixas, sobretudo entre casados. Por vezes era difícil falar de viva voz, dada a delicadeza do assunto, depois havia certo perigo, pois palavra puxa palavra...

Não tendo sinais gráficos para porem diante dos outros as mágoas Intimas; convencidos de que as palavras não são muitas vezes suficientes «por as levar o vento»; desejando que o "sermão" fica-se algum tempo presente na mente dos delinquentes; perante todas estas necessidades, encontraram uma maneira simples airosa e poética de conseguirem o seu intento: a representação, por imagens humanas, de animais e simples "as da natureza, que encerrassem em si todo o assunto que tinham para expressar ao próximo. E assim, a maior parte das vezes, para falarem dos vícios humanos põem os animais e as coisas a dialogar, tal como os antigos fabulistas.

Deste modo os testos, que a princípio deviam ter sido toscas tábuas, com uma parte saliente para mais fácil manejo, (foram recebendo, por enfeite, outras figuras, até que por fim se viram cheios de "bonecos animados" a contracenar no drama da vida, fazendo as vezes dos actores humanos.

Assim é de facto, pois os testos não são mais do que cartas enviadas uns aos outros: a família ao filho e à filha, antes ou depois do casamento, para lhes recordar certos princípios fundamentais na nova vida de casados; a maior parte, porém, são oferta entre esposos.

Eram cartas, como dissemos. Nelas, os objectos esculpidos substituem o ofertante e a pessoa contemplada, para falarem o que lhes ia na alma.

Havia necessidade de falar sobre certos assuntos? Procurava-se um advogado autóctone, velho que assistia a autoridade gentílica na solução dos pleitos. Este, mediante pagamento, ouvia a queixa e esculpia na tampa todo o pensamento a transmitir.

No momento mais azado fazia-se a oferta. Sendo a esposa a oferecer o testo ao marido, à hora da refeição, traria a panela ou pote com a comida, tapada com o dito testo. O homem já sabia que tinha ali uma longa carta da esposa. Sendo o homem a oferecer, depois de comer guardava o velho testo que vinha a tapar a panela e substituía-o pelo novo. Momentos depois chegaria a esposa para recolher a louça e lá teria em cima da panela a carta do marido... A família aproveitava uma visita aos filhos e deixaria aquela oferta bem simbólica.

A pessoa contemplada procurava a decifração da mensagem. Não o conseguindo, recorria aos referidos advogados e ficava a saber tudo o que o seu interlocutor lhe tinha a transmitir. Deste modo tão singular se davam os avisos julgados oportunos, as reprimendas necessárias, os ultimatos matrimoniais que as circunstâncias exigiam.

Muitos ensinamentos nos dá o estudo em questão, para quem souber ler e examinar os testos com olhos de ver:

a arte indígena, posta na sua execução, apesar dos utensílios rudimentares usados;

o realismo psicológico e por vezes, cómico das figuras, desde os traços esculturais à sua expressão e gestos ,

os provérbios que cada figura comporta são uma verdadeira riqueza etnográfica. As palavras já dizem muito, mas o sentido que lhes é atribuído encerra um manancial de poesia, e etnografia da mais pura;
um autêntico compêndio doutrinal de real apreço. Neles encontramos muitas leis tribais codificadas, os usos e costumes da época, a religião, os seus feitiços e práticas supersticiosas, ideia de vida, das dificuldades desta; enfim a filosofia tradicional daquelas gentes.

Resumindo: nos testos encontramos um código perfeito das leis civis, tribais, morais e sociais das gentes de Cabinda.

SOBRE A APRESENTAÇÃO DO PRESENTE ESTUDO

Agrupámos os Testos em cinco grupos, ou partes:

1.a - Testos oferecidos pela família ao filho antes e depois do casamento.

2.a - Testos oferecidos pela família à filha antes e depois do casamento.

3.a - Testos oferecidos à mulher pelo homem.

4.a - Testos oferecidos pela mulher ao homem.

5.a - Nesta parte agrupámos os que não é possível saber-se se o ofertante foi o homem ou a mulher. Só eles o poderiam saber, mas já os não encontrámos...

Quanto ao método de exposição adoptámos o que nos pareceu mais prático e elucidativo :
numerámos os Testos, na parte inferior; demos a cada figura um número que prevalece em toda a explicação.

O estudo de cada um foi assim delineado:

I - Identificamos as figuras, dizendo o que cada uma representa, não esquecendo a referência do número que recebeu.

II - Damos o provérbio, de cada figura mencionada; em Cabindes, ou Oio, que é a língua nativa da região; segue-se a tradução em português; procedemos a uma breve explicação, quando isso é necessário para melhor compreensão do assunto. Dizemos qual é o sentido do provérbio; damos o provérbio português que, quanto a nós, tem mais parecença com o provérbio Cabinda.

Quando o mesmo provérbio se repete, referimos as explicações e o sentido na primeira vez que aparece, omitindo-os, ou resumindo-os nos outros lugares, para não alongarmos de mais este nosso trabalho e porque julgamos desnecessária tal repetição.

III - Explicamos o Testo. Fazemos a sua leitura, ligando entre si os vários provérbios, à semelhança de uma carta em introdução, parágrafos e saudação final.

Assim ficam explicados de um modo acessível a todos, mesmo aos menos familiarizados com a vida Africana.

Apenas nos moveu uma razão neste árduo trabalho,
valorizar o povo de Cabinda, dar aos europeus um guia seguro para lerem a alma nativa, melhor a conhecerem para mais a amarem.

A sua publicação só foi passível graças à gentileza da Agência-Geral do Ultramar.

Cabinda, 8 de Dezembro de 1966.

JOSÉ MARTINS VAZ



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