O SIMBOLISMO DOS CABINDAS
Pelo P.re Joaquim Martins C.S.Sp.
Dezembro de 1961

Os habitantes do País de Cabinda são na sua maioria povos Bakongo vindos do antigo Reino do Congo.
Bakongo (note-se que o prefixo ba indica, por si só, o plural, e não dizemos ou escrevemos Bakongos) são também, genealógicamente, todos os povos que se encontram desde São Salvador do Congo até Alima, desde o Oceano até Léopoldville (Kinshasa) e mesmo até Batege e Kasayi, posto que se chamem Bawoyo (N'Goyo), Bayombe, Bavili, Balinge, Basolongo, Bakongo, Bambata, Basundi, Baluba, etc., etc..

É historicamente certo ter havido uma emigração dos povos de São Salvador do Congo. Longo levaria apresentarmos as razões. dessa emigração, segundo as várias tradições conhecidas.

A chegada, porém, dos Bawoyo, sem ser possível precisar a data, não parece ser anterior a 1500.

Encontramos no País de Cabinda os Bakongo propriamente ditos, Bawoyo, Basundi, Bayombe, Bavili, Balinje e Baluangu. Os Balinje e Baluangu podemos considerá-los como Sub-clãs, sub-tribos.

Quanto aos Bakongo e Bawoyo, encontram-se, na maioria, dentro do País de Cabinda. Os Bayombe, Basundi, Bavili estão ligados aos territórios vizinhos, onde se encontra a maioria dos representantes do clã: os Bavili, ligados ao ex-Congo Francês, os Bayombe ao ex-Congo Francês e ex-Congo Belga e os Basundi com infiltração - e muito grande - no ex-Congo Belga.

É entre estes povos do País de Cabinda, sobretudo entre os Bakongo, Bawoyo e Basundi, que encontramos os exemplares mais interessantes e mais típicos do simbolismo entre os Cabindas.

A região de Kakongo entra ainda, bastante, pelo vizinho ex-Congo Belga. O Chefe, porém, dos Bakongo habita em terreno de Cabinda, na aldeia do Kai-Kaliado.

Os documentos que vamos apresentar, como exemplares do simbolismo entre os Cabindas, representam testos de panela (Libaia linzungu, pl. mabaia manzungu), esteiras (Nkuala buinu, p1. zinkuala zibuinu) e a bandeira do Rei do Reino Estado de Kakongo, o Kapita Mueninpolo, do Kai-Kaliado.

Os testos encontrámo-los, quase unicamente, entre os Bakongo - habitantes das terras de Kakongo - e os Bawoyo - habitantes das terras de N'Goyo - e ainda, um pouco, entre os Bavili e Balinje - habitantes das terras de Loango.

As esteiras vemo-las, ordinariamente, entre os Basundi, Bayombe e Balinje.

Estas esteiras são trabalho das mulheres. Os testos, dos homens.
Examinando superficialmente os testos e as esteiras, seremos levados a dizer o que quase sempre se diz: trabalhos indígenas, arte indígena.

Se nada mais procurarmos, se nos contentarmos só com o que os olhos nos podem mostrar, muito pouco teremos visto e estacionaremos muito longe da verdade.

Não se nega certa arte, por vezes, muita arte, na confecção destes objectos. Há-os perfeitamente executados. Muitos trabalhos manuais, saídos das mãos dos alunos e alunas dos nossos colégios e escolas, ficariam àquem de muitas esteiras impecavelmente tecidas pelas indígenas elas simples aldeias.

Arte e habilidade, quer nos testos quer na esteiras saídas das mãos dos nossos ou nossas indígenas, existe. A manifestação do belo encontra-se em todas as raças e tribos.

Mas há muito mais do que arte em todas essas figuras e desenhos. Os indígenas - note-se que nos referimos aos do País de Cabinda - não gravam uma imagem num testo de panela ou tecem desenhos em uma esteira ou esculpem, seja o que for, nas cabaças do vinho de palma ou rabiscam qualquer coisa nas panelas e sangas de barro só porque é mais ou menos bonito, mais ou menos interessante. O que gravarem, tecerem, esculpirem, rabiscarem tem um sentido.

Não gravam este ou aquele animal, este ou aquele objecto só por gravar. Esse animal, esse objecto, essa figura é um símbolo, é a representação de suas ideias, é uma escritura!...

Por isso, o grande etnógrafo Padre Leo Bittremieux, dos Padres Scheut, chamava-lhe escritura ideo-gramatical.

De facto, nesses trabalhos dos indígenas, nada há perdido. A tudo anda anexo um provérbio, um conceito.
Nas tampas de panela, nas esteiras, etc., etc., lá têm escritas as suas ideias.

Nelas nos mostram o seu pensar, o que têm de mais nobre e de mais belo nas suas almas de rudes e simples e nos seus espíritos, como o pintor nos revela a sua alma e espírito na tela que acaba por dar por terminada.

São tão variados os seus conceitos que uma boa colecção destes objectos quase nos permitiria coordenar um código cívico, jurídico, familiar e moral desta gente.

Mostram-nos esses trabalhos a sua intuição, o seu espírito dotado de um poder de síntese extraordinário e verdadeiramente psicológico.

Procuram a imagem, a comparação naquilo que é material, logo transportam para o domínio espiritual e moral essa comparação, tirando dela conceitos verdadeiramente admiráveis.

É a escritura, a revelação verdadeira das suas ideias.
Não têm alfabeto. Escrevem por figuras, arremendando os hieróglifos dos Egípcios e os desenhos das Catacumbas.

E, assim, nos patenteiam o que de mais típico existe na sua língua: os provérbios. Por estes, revelam a agudeza do seu espírito.

Estamos certos que a descrição ou «leitura» de alguns testos e esteiras que vai seguir-se dará força às nossas afirmações.
 
 


TESTOS OU TAMPAS DE PANELA

Dissemos, já, serem eles feitos pelos homens. São de madeira, em geral da madeira da árvore nsanha, feitos de uma só peça com figuras em alto ou baixo relevo.

Nos testos, encontra-se um ou vários provérbios.
Vamos proceder à «leitura» ou explicação de dez testos.
Começaremos essa «leitura» pela figura central, passando à que se encontra ao alto e seguindo, depois, pela direita.
 
 

PRIMEIRO TESTO








Ao centro, damos com uma panela assente em três makuku (1) - três pequenos morros de salalé (que a fotografia não mostra) e as achas - bisuali - para o fogo.

Nessa figura lêem o seguinte

Makuku matatu mitelamena nzungu:

Buingi nkiento kalanga bubote i nuni andi.

Três morros de salalé (morros da formiga branca) sustêm de pé a panela:

Enquanto a mulher vive bem com seu marido.

A panela, sempre cheia e pronta a horas, ainda é e sempre será, entre eles, a prova das boas relações entre marido e mulher.

Os morros de salalé são a trempe dos indígenas. Tomar só dois é arriscar-se a deixar virar a panela. A mulher que assim fizesse seria tida por mui pouco cautelosa.

Três makuku é o mínimo necessário para se equilibrar, com segurança, a panela.

E dizem eles ainda: para se ganhar uma demanda, um mambu, precisos são bons argumentos e boas provas.

Mas com esta figura da panela sobre os três makuku querem, sobretudo, dizer o seguinte: três coisas são necessárias para haver paz e harmonia entre marido e mulher - a casa, o vestido e o uso matrimonial que resulte em filhos.

Assim, há paz e boa harmonia entre os dois, e o marido recosta-se satisfeito enquanto a panela está ao lume.

Lá o vemos na figura, ao alto.

Buingi nkiento kalanga bubote i nuni andi.

Enquanto a mulher vive bem com seu marido.

A figura que se encontra para a nossa direita, ao lado do homem, representa o kiala-mioko. É o fruto da árvore muala-mioko, símbolo da generosidade.

Vem de kuala-mioko = estender as mãos abertas. Os indígenas querem ver nessa figura como que duas mãos abertas e estendidas para os outros. O fruto dessa árvore tem, de facto, essa mesma configuração que se vê no testo aqui apresentado.

Kiala-mioko:
Ke zinfumu, ke zinganga, ke zionso
Zi fuanikini kuntambula.

Mãos abertas (mãos largas, generoso):
Para com os chefes, feiticeiros e para com todos
Tem de receber (a recompensa de sua generosidade).

Para receber é preciso dar também. Mãos que não dais, dizemos nós, porque esperais?
Com mais realismo e, sobretudo, mais materialismo aplicam este provérbio às mulheres de vida fácil.

A figura que segue representa uma concha marítima que, em língua indígena, se chama zinga.

Zinga (ku zinga) = viver, viver largo tempo.
Luzingu = vida.

Zinga ki bumpati,
Zi ku bunganga,

U zinga ayi monho uala kia.

A vida (o viver) de herança,
A vida de grandeza,
Para viver (com uma mulher) com o coração limpo (é difícil).

Os grandes Chefes, com grandes heranças e grandezas, têm - segundo os velhos costumes - necessariamente grandes famílias e são levados a ter um harém. Pois se os sobrinhos, por lei, têm direito às mulheres do tio e os irmãos às mulheres do irmão falecido!...

Aos grandes todos recorrem. Se não têm paciência, calma, como poderão tratar dos assuntos que diariamente lhes vêm às mãos?

Como olharão para suas mulheres com coração puro?
Também podemos aplicar aqui o outro provérbio:

Tuba uali aku bubote:
Buingi u zinga bubote.

Fala bem do próximo:
Para que tenhas vida boa.

A seguir ao zínga temos o ngongie. É um instrumento de música ou, melhor dito, instrumento de som. Tem dois sons diferentes - um grave e outro agudo - e serve, ordinariamente, para chamar o povo das aldeias a fim de ouvir as ordens do Chefe.

É metálico. Em geral, só os Chefes e os grandes da terra possuem o ngongie.
Há sempre um homem que tem a missão de o tocar, a que se chama o mbula ngongie = o tocador.

Vários são os provérbios sobre o ngongie:

Ono ke ngongie, nfumu nene:
Ono ukambuizi ngongie, ki si nfumu nene ko.

O que tem ngongie é grande Chefe:
O que não tem ngongie não é grande Chefe ou Rei.

Ngongie i bika bakulu:
Minu vala ki vala.

0 ngongie que me deixaram os antepassados (é este):
Eu tenho valor (por isso mesmo).

Ndengolé: nsi ai matu.

Ndengolé ( - _ - ) - som do ngongie, dois agudos e um grave.

Ndengolé: esta terra tem ouvidos.

Quando se houve o ngongie, é para se ficar atento às ordens dos Chefes.

A figura que segue representa o tabaco - sunga - o tabaco em fio - sunga i vandua - usado nos cachimbos.

As mulheres usam-no tanto ou mais do que os homens.

Sunga i vandua:
Ntalu i mana.

O tabaco em fio:
Acaba com o olhar (com a vista, cega as pessoas devido à má qualidade e ao muito fumo que faz).

Os homens são como o tabaco: de boa ou má qualidade. Não são iguais. E acabam mais cedo quando não têm o que lhes é necessário ou tem só o que lhes pode fazer mal.

A figura seguinte parecer-nos-á um pequeno feixe. Representa, porém, um pente.

Há pentes de madeira com cinco ou seis dentes, feitos numa só peça.

Há-os também, contudo, feitos de banza. A banza é tirada da parte mais dura do ramo da palmeira, das costas. Depois de seca, a banza é muito resistente.

Estas pequenas banza, bem limpas e cortadas por igual, são ligadas entre si, fazendo-se passar o fio ou ráfia por entre cada uma, separando, assim, os dentes do pente.

Isanu (p1. usanu) = pente.

Nhenze usana nlengie:
Nkazi abu kalambizi.

(Sinto) alegria em pentear-me:
(Porque) agora a mulher cozinhou.

Para quê andar muito bem posto se a fome não nos deixa ficar de pé?
Para quê luxos em barrigas vazias?

Temos, por último, uma figura que representa um pedaço de mandioca (Manihot utilissima).

Liaka (pl. mayaka) = mandioca,

Kete liaka u vana.

Ao menos que dê mandioca (ao marido).

Toda a esposa deve tratar bem o seu marido. Se nada mais tem para lhe dar a comer, que lhe dê mandioca, pois essa nunca falta.

Lembremos que o País de Cabinda é bastante rico e proporciona aos indígenas regime alimentar sempre rico e abundante.

A mandioca, depois de espetados os paus na terra - não tem semente, como se sabe, e não é tubérculo que se plante, como p. Ex. a batata, mas sim uns 30 a 40 centímetros do caule-pode começar a comer-se 6 a 8 meses depois. Para o sul do Zaire, precisa-se, possivelmente, do dobro do tempo.

Há nas cerimónias do casamento uma que lembra o provérbio acima apontado - kete liaka u vana.

Ao noivo é enviado um prato pequenito com um pouco de mandioca crua, dois ou três grãos de coconote e um pouco de «saca-folha», que é uma espécie de esparregado de folhas de mandioca, simplesmente cozida na água sem condimento algum.
 

Nesta primeira tampa ou testo de panela encontramos o mínimo de oito provérbios diferentes, ligados a cada uma das figuras que nele - testo - se contêm.

Cada provérbio, por si só, é já uma bela e interessante lição. Já nos foi possível notar como da imagem sensível do objecto que os nossos olhos abrangem, eles partem para um conceito espiritual e moral, pelo menos dentro da moral indígena.

Mas a argúcia de espírito dos Cabindas mostra-se não só em cada um dos provérbios que apresentam e representam nas figuras dos testos, mas especialmente na ligação lógica entre todos os provérbios do mesmo testo.

Assim, não se atiram para um testo figuras a esmo, mas figuras cujos provérbios possam dar uma ligação entre si.

A «leitura» geral de todos os provérbios deste primeiro testo dá-nos a lição que se segue:

Na família, para haver paz e alegria, é necessário que não faltem aquelas três condições apresentadas - casa, vestido e uso matrimonial que resulte em filhos - makuku matatu... nzungu, que haja alguma coisa que se coma - kete liaka - mandioca que seja, generosidade mútua - kiala-mioko, numa vida conjugal regrada zinga..., mesmo que seja rico - ono ke ngongie, e, então, pode descansar-se um pouco - buingi... kalanga bubote, ter-se vontade de andar bem apresentado - nhenze usana.... e fumar-se, mesmo que o tabaco não seja do melhor, mesmo que seja tabaco em fio - sunga i vandua.

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Entre os Bakongo e os Bawoyo, o k antes de i, seguido de outra vogal, toma o valor de tch (v. g. kiala-mioko = tchiala-mioko, nkiento = ntchiento).

Também entre os mesmos, o g antes de i e de e toma o valor de j (v. g. buingi = buinji, ngongie = ngonjie, nlengie = nlenjie.

Nas outras tribos, de um modo especial entre os Bayombe e Basundi, o k e o g nunca mudam de valor.

Em todas as tribos o s nunca tem o valor de z.
 
 

SEGUNDO TESTO
 
 










Uma só figura neste testo. Um só provérbio.
Nada mais e nada menos do que a figura central do testo anterior já descrito.

Makuku matatu mitelamena nzungu.

Três makuku sustêm a panela.

Procure-se a explicação no anterior.
Mesmo com um só provérbio, tem explicação e sentido perfeito.
 
 

TERCEIRO TESTO
 
 









Representa uma galinha com um grilo no bico.

Nsusu (p1. zinsusu) = galinha.
Nzenze (p1. zinzenze) = grilo.

Minu, nsusu, mbakizi:
Kaza kinzenze kiami.

Eu, galinha, fui apanhada (pertenço-te):
Mas o grilo é meu (porque o apanhei eu).

Estou debaixo das suas ordens, mas o que é meu... é meu.
É o princípio de justiça, o direito de propriedade. Suum cuique. O seu a seu dono.
 
 

QUARTO TESTO
 
 









Representa uma jibóia a engolir um homem.

Mboma (p1. zimboma) = jibóia.
Muntu (p1. bantu) = homem - pessoa.

Mboma lili muntu:
Nsangu toka tikuanga.

A jibóia comeu uma pessoa:
A fama só costumamos ouvir.

Isso é o que se diz. Mas quem tal viu? Que grande trabalhador? É o que se diz, mas não o que se vê! Muitas palavras e poucas obras.
 
 

QUINTO TESTO

Ao centro, está representada uma pessoa com as mãos nos joelhos. Esta posição é para indicar o cansaço de quem anda, de porta em porta, a pedir favores.

Nkazi mbamba:
Makungulu tanta.

Não tenho esposa (ou família):
Doiem-me os joelhos.

Não tendo família (nem esposa), é preciso andar sempre a pedir favores aos outros - verga-se, ajoelha-se a fazer pedidos a estranhos, o que sempre custa.

A figura que nos aparece atrás do homem, representa - ainda que mal - um coração (ntima = coração).

Ntima viakene:
I ke muntu mbote i ke muntu mbi.

Os corações diferem:
Há homens bons e homens maus.

Assim somos bem ou mal recebidos, segando o coração e sentimentos das pessoas.
Do lado direito, temos a representação da concha marítima chamada nsose.

Nsose, além de significar uma concha marítima, também quer dizer falar ou ainda assobiar em sinal de desprezo.

Ku sonsa = falar.

Ta nsose:
Ki mana nganzi.

Assobia (em sinal de desdém):
E acaba o rancor.

Anda, acaba! Fala, diz o que tens e o que pensas. Assim, vai-se o rancor.
Temos depois um kiala-mioko.
Confira-se a leitura e explicação correspondente no primeiro testo. Ao fundo, a representação de um caranguejo.

Nkala (pl. zinkala) = caranguejo.

Nkala balcola minzi:
Ka siala ngolo ko.

Ao caranguejo a que tiraram as patas:
Não ficou força (para poder andar).

Aquele a quem a família morreu não tem grandes meios para viver, e é deixado de lado por todos.
A quem se tirou o poder, não pode mandar... Outro provérbio que se pode adaptar aqui:

Buendila nkala:
Munti buandi.

Caminhar de caranguejo:
Cada um com o seu (passo - seu modo de ser).

Cada um terá de levar as coisas como puder e como souber. Temos a seguir a representação do nzinga. Veja-se o primeiro testo. Por fim, as duas figuras que se encontram juntas. A maior representa um ananás - Ananás sativus - e a mais pequena representa o fruto do arbusto nsaka.
 

Lifubu (p1. mafubu) = ananás.

Nsaka é um fruto muito doce que atenua a acidez dos frutos verdes.

Lifubu nkua-nganzi:
Muntu unlendula nsaka.

O ananás ácido:
O homem (desfaz) acalma (essa acidez) com a nsaka.

As repreensões devem ser dadas e acalmadas com boas palavras.
Resumindo os conceitos deste testo:

O pedir custa sempre muito - makungulu tanta, porque nem todos os corações são bons - ntima viakene, e arriscamo-nos, ao pedir, a ser desprezados e até assobiados - ta nsose, porque a generosidade não é virtude comum a toda a gente - kiala-mioko, e o desgraçado a quem falta a família, como ao caranguejo a quem faltam as pernas - nkala bakola minzi, nem sempre encontra gente que leve vida regrada - nzinga, e que adoce as suas palavras e recusas com boas expressões e bons modos, como o fruto da nsaka quebra a acidez do ananás que ainda não está maduro - lifubu nkua-nganzi: muntu unlendula nsaka.

SEXTO TESTO
 
 










O testo está um pouco velho e quebrado.
No centro, dois pombos bravos que lutam por apanhar o mesmo grão de amendoim,

Libembe (p1. mabembe) = pombo bravo.
Mpinda (pl. zimpinda) = amendoim.

Mabembe mamuali manuanina mpinda:
Umvimba lilunga, mvimba libela.

Dois pombos bravos lutam (para apanharem) pelo amendoim:
Um ganha, outro perde.

Duas pretendentes ao mesmo homem. Dois pretendentes à mesma mulher. Casam as duas com o mesmo? Casam os dois com a mesma? De modo algum. Nas lutas, sejam quais forem, em geral há vencido e vencedor.

Dos lados, aparecem-nos como que dois lagartos. Representam o crocodilo e o caimão. 0 tamanho de um, na realidade, é diferente do outro. Um crocodilo adulto é sempre maior do que um caimão também adulto. Por isso, assim como, por ex., uma pedra pequena e uma grande lançadas à água fazem maior ou menor redemoinho, conforme o tamanho, assim se dá com o crocodilo e o caimão

Ngandu (p1. zingandu) = crocodilo.

Kimbolu = caimão.

Ngandu, pfu i kimbolu, pfu:

Ntenvu viakene.

O jacaré, crocodilo, (faz) pfu (ao entrar na água) e o caimão, pfu:
O redemoinho (de um, é diferente do outro devido ao tamanho) passa - não é igual.

Cada um com as suas forças, com as suas posses.

O sentido dos dois provérbios deste mesmo testo é, substancialmente, o mesmo, como facilmente se pode concluir.

SÉTIMO TESTO
 
 









Ao centro, uma orelha, um pavilhão auricular.

Kutu (p1. matu) = orelha.

Matu bonsi kukulila:
Podi vioka ntu ko.

As orelhas por mais que cresçam:
Não podem passar acima da cabeça,

O súbdito, o pobre, não passa acima do chefe - do rico - por mais que faça.

A pobreza ou a submissão entre indígenas, que mais sentida é, é a que vem da falta de descendência.

Na fotografia deste testo, notamos três grãos muito semelhantes. Representam três grãos do feijão «macoba» (Voandzeia subterrânea Thouars).

Em língua indígena, a «macoba» chamasse:

Nkongo (p1. zinkongo) = feijão «macoba».

Ngeie, mbongo nkongo:
Podi ianduka ko.

Tu, semente de «macoba»:
Não te podes reproduzir (muito).

Assim acontece àquele que só tem filhos e não filhas.
A família, pelo menos entre os Cabindas, é transmitida (ou tida como sendo só transmitida) pela parte feminina. É o sistema matrilinear.

A semente da ginguba - amendoim (Arachis hypogea), por muito cuidado que se empregue, nunca se chega a extrair toda da terra. Na época própria, volta a rebentar e a reproduzir-se.

A que ficar germinará.

Com a semente do feijão «macoba» não se dá o mesmo. Facilmente se arranca toda e a que fica na terra acabará por apodrecer.

Se não tem irmãs (que são como o amendoim ... ), como se reproduzirá a família, visto ter-se só por verdadeira a família que vem das irmãs - sistema matrilinear? (Os filhos de minha irmã são do meu sangue. Mas, os filhos de minha mulher serão todos meus?)

A figura que notamos à esquerda e em baixo representa a noz tumbu, da árvore do mesmo nome, que é dedicada ao feitiço mvemba.

Tumbu mvemba utumbuluili liambu:
Butu ayi longo.

A noz tumbu dedicada ao feitiço mvemba te adverte de uma questão (iminente):
(é o dever dos) Parentes e afins,

Assim escreve o P. L. Bittremieux.

 Tumbu mvemba:
 Onu utumbuili mambu
 Ke banfumu
 Ke banganga
 Mana matubila kundambu
 Muntu mbote bene.
 A noz tumbu (dedicada ao feitiço) mvemba:
 Te adverte de uma questão
 Para com os Chefes
 Para com os feiticeiros
 Para que falem em segredo
 (que és) Uma boa pessoa.
 

O feitiço mvemba é o feitiço da família. Por isso, todos os que a ele estão sujeitos devem ser leais entre si e não alcoviteiros, para receberem benesses à custa de segredos que deviam ser bem guardados e não revelados.

Resumindo e ligando os provérbios entre si, temos:
Se não se tem a protecção do feitiço mvemba que te adverte das questões familiares - tumbu mvemba utumbuluili liambu, e não há irmãs para a transmissão da família, acabará a descendência como acaba por apodrecer na terra a semente da «macoba» - mbongo  nkongo... podi ianduka ko, e é tão difícil o aumento dessa descendência como às orelhas é, por mais que façam, passar acima da cabeça - matu... kukulila: podi vioka ntu ko.

OITAVO TESTO

Temos neste testo o desenho central do testo número seis.

Mabembe mamuali manuanina mpinda:
Umvimba lilunga, mvimba libela.

Dois pombos bravos lutam pelo amendoim:
Um ganha, outro perde.

Sabemos já qual é a lição.

NONO TESTO









Ao centro, um cesto (impropriamente dito ) feito com dois ramos de palmeiras entrelaçando-se-lhes as folhas.

É chamado:

Ntete (p1. Mintete).

Makuela ntetete.
Podi sikama va nzo nuni ko.

A mulher casada (quando tem à cabeça) o pequeno ntete:
Não pode ficar em casa do marido.

O grande «mutete» - tem sido já aportuguesada a palavra é usado para cargas bastante volumosas e pesadas.

Porém, quando a mulher usa o pequenito «mutete» (ntetete é o diminutivo, que se forma repetindo a última sílaba), ou é em passeio ou quando, aborrecida com o marido, sai de casa dele para a casa dos pais.

Quem não faz o que o marido manda, com frequência anda com o «mutete» à cabeça de casa dele para a dos pais, de casa para casa.

A mulher, por vezes, à menor desavença com o marido - e muitas vezes a culpa é da... sogra - salta para casa dos pais donde só voltará novamente depois de o marido pagar alguma coisa, quer a ela quer aos sogros. E quantas não aproveitam a mínima palavra para assim procederem a fim de, elas e os pais, receberem do marido o que desejam?!

Ao lado do «mutete», vemos um cachimbo.

Como as mulheres indígenas fumam muito, possivelmente mais do que os homens, lá vão de passeio ou de partida...

Itimba va munu.

De cachimbo na boca,

como se nada fosse...

Itimba (p1. utimba) = cachimbo.

À nossa esquerda, está representado um milipede enroscado.

Ngongolo (p1. zingongolo) = milipede.

Ngongolo nombe:
Ufutamananga liambu.

O milipede preto:
Enrosca-se (por alguma) coisa (por algum motivo).

Onde há fumo, há fogo. Se ralham, certamente é porque há motivo.

Resumindo:
Assim como o milipede quando se enrosca é porque lhe tocaram e, portanto, tem motivo para isso - ngongolo nombe: ufutamananga liambu, assim também, quando a mulher sai de casa do marido de «mutete» pequenito à cabeça - makuela ntetete, é porque alguma coisa houve (mesmo puxada pelos cabelos ... ) que a isso a levou. E lá vai, não dispensando o seu cachimbo - itimba va munu.

DÉCIMO TESTO

Ao centro, temos a representação de um caixão de um só feitio, de uma só proeminência.

Lukata = caixão.

Lukata lunvumbi:
Litumbi limueka.

Caixão de morto:
De uma só proeminência.

Segundo se é rico ou pobre, mais rico ou mais pobre, os caixões têm uma ou mais proeminências, feitios.

O caixão, desta vez, é caixão de uma só proeminência, é caixão de pobre.
Ao cimo, temos a representação de um machado.

Itali      (p1. utali) = machado.

Itali bata kuika:
Kaza muntu limonho kuikuanga ko.

Um machado costuma ser encabado (o machado força-se para se lhe meter um cabo):
Mas uma pessoa viva (que tem vontade) não se força, não se «encaba»...
Com este provérbio, querem dizer que o homem é livre, e esta liberdade aplicam-na, sobretudo, ao casamento. Por ele, vemos proclamada a liberdade de escolha de esposo e esposa.
Encaba-se um machado, mas não deve forçar-se este ou aquele a casar com quem lhe não agrada.

À direita, vemos o tumbu mvemba.
Consulte-se o sétimo testo,
Em baixo, a representação do kiala-mioko.
Confira-se a descrição no primeiro testo.

À esquerda, uma chave.

Nsabi (p1. zinsabi) = chave.

Nsabi iaku koyo:
Ibika bakulu.

Esta é a tua chave:

Que deixaram os antepassados.

Recebe e guarda a herança, grande ou pequena (tudo, mesmo as mulheres de teu tio ... ), deixada por teus antepassados.

E resumimos:

Mesmo que os antepassados hajam sido pobres e tenham levado caixão  de pobre - lukata... litumbi limueka, haverá paz desde que se admita a liberdade de cada qual - itali bata kuika: kaza muntu limonho kuikuanga ko, desde que haja a protecção do feitiço mvemba tumbu mvemba, e desde que se seja generoso - kiala-mioko, para, desta forma, receber a recompensa que será a herança de seus velhos nsabi iaku koyo: ibika bakulu.

ESTEIRAS

São elas trabalhos de mulheres. Ã esteira com provérbios dá-se o nome de nkuala buinu (p1. zinkuala zibuinu).
São feitas com a fibra da planta nzombe, entrelaçada em desenhos geométricos, alguns dos quais representam animais.

Três cores podem aparecer nessas esteiras: branca-amarelada, preta e vermelha.

O branco-amarelado consegue-se secando a fibra, simplesmente, ao sol.
O preto, depois de imersas as fibras na água lodosa das lagoas (sempre cheias de taninos) durante três a quatro dias.
O vermelho consegue-se cozendo a fibra com o cerne, reduzido a pó, da takula - Pterocarpus.

São bastante arbitrários os provérbios aplicados nas esteiras.

Não esqueçamos que são obras de mulheres... e estas tanto podem ter um espírito mais arguto como mais caprichoso que o dos homens.

Nas esteiras, encontramos um só provérbio em cada uma. É o do desenho central.
Vamos apresentar seis dessas esteiras.

PRIMEIRA ESTEIRA
 









O desenho central é um arremedo do que se encontra na parte superior da carcaça da tartaruga. Representa, aqui, a própria tartaruga.

Nkuvu (p1. zinkuvu) = tartaruga.

Nkuvu natina muanza.

A tartaruga leva (consigo) o tecto (a casa).

Não precisa, pois, a tartaruga de procurar abrigo em casa alheia, visto arrastar sempre a própria casa, levar o que lhe é preciso.
Assim o homem, para qualquer parte que vá, deve levar consigo a mulher. Deste modo não pensará nas outras mulheres, nas mulheres dos outros e vice-versa.

Conceito: que cada um procure ter o que lhe é preciso.

SEGUNDA ESTEIRA
 









Representa um leopardo.

Ngó (p1. zingó) = leopardo.

Ngó kaliá makanganhi:
Buna kambua kambuizi.

O leopardo que come folhas de makanganhi - capim:
É porque falta (outra comida).

«quando não há carne ... »

Assim, que o marido não fique de mal com a esposa se ela lhe não der boa comida. Certamente é porque não há melhor, pelo menos na ocasião, em casa.

Confira-se o primeiro testo - kete liaka u vana - nem que seja só mandioca.

TERCEIRA ESTEIRA









Representa o milipede - ngongolo - (p1. zingongolo).

O desenho representa o milipede enroscado. O traço branco, ao centro, representa o mesmo milipede quando, sem obstáculo algum, segue direito o seu caminho.

Confira-se o provérbio respectivo no nono testo.

QUARTA ESTEIRA
 









Ntumbuluila:
Minu ienda kuami.

Desengana-me:
E eu vou-me.

É o que querem dizer com o desenho desta esteira que dá a impressão de inacabada.

Assim diz a esposa ao marido: acaba de uma vez com isto, com o que queres dizer ou fazer. Desengana-me de uma vez para sempre.
 
 

QUINTA ESTEIRA









A primeira coisa que nos choca nesta esteira é o emaranhado do desenho.

Tem o dito seguinte:

Nnenina kuaku:
Minu veka iza takana.

Faz de mim o que quiseres (à letra = defeca sobre mim):
Eu é que vim ter contigo,

No emaranhado do desenho, tão caprichoso, quer-se mostrar os passos e caminho andado até encontrar o marido desejado.

E agora, que o tem, que deve fazer? Submeter-se totalmente ao marido,

SEXTA ESTEIRA









Nesta esteira não é o desenho que conta. É sim o feitio da própria esteira, querendo, dando esta forma, representar o grande morcego.

Mpeko (p1. zimpeko) = morcego (com cabeça de cão).

Mpeko:
Uvanga monho.

O grande morcego:
Está quieto (e vigia).

O mpeko representa a família e o chefe de família. Este - o chefe - deve guardar a família e tratar-lhe das demandas. Assim, os recentemente casados pregam junto às portas da casa, na porta da entrada mais commumente, uma pequena esteira com o formato da que apresentamos (arremedando duas asas) que tem o nome de mpeko e que representa o novo chefe da casa e que assume a obrigação de velar por todos os assuntos do novo lar.
 
 

A BANDEIRA DO KAPITA
 







As terras do Reino Estado de Kakongo que, segundo os costumes indígenas, deveriam ser governadas por um Malongo (o Ma é o prefixo que designa a Realeza), têm como Chefe um Kapita.

Seria muito fastidioso explicar como o poder passou dos «Makongos» para os «Kapitas».

Certo é que o tratado feito entre Portugal e os povos do Reino Estado de Kakongo foi assinado (com o sinal + ) pelo Kapita Ntali-Ntali em 29 de Setembro de 1883. Confira-se o Boletim Oficial n.o 42 de 29 de Outubro do 1883 de portugal.

Vamos, pois, à descrição e explicação da bandeira dos «Kapitas».

Ao centro, esta o Rei. O Rei leva o filho às costas.

Pata, Mikono:
Livembo liami likele.

Pai (diz o filho), olha a planície de Mikono:
Vais aos meus ombros (responde o pai).

Se vês é porque te levo. Que vale o filho se o pai, que é Rei, o não ajuda e lhe não dá o nome e poder?

Em cima, à direita, temos o Sol. À esquerda, a Lua.

Ntangu (p1. zintangu) = Sol.
Ngonde (p1. zingonde) = Lua.

Ngonde podi vioka ntangu ko.

A Lua não pode passar à frente do Sol.

Os súbditos não podem passar adiante de seu Chefe, Rei.

Em baixo, à direita, uma palma da mão.

Nkanda likoko = palma da mão.

Nkanda likoko:
Mvika lieso lituvi.

A palma da mão:
Escrava do olho... (esta seria a tradução literal).

O súbdito não passa de um servidor de seu senhor. Assim, estará o súbdito para o seu senhor, como a mão do homem está para o seu dono, a ponto de servir para todos os trabalhos... mesmo para os mais baixos.

Em baixo, à esquerda:

Um homem que significa o povo, e que bate palmas.

Nkanda likoko li sakilila mbene.

Bate as palmas das mãos (mesmo que seja) inimigo.

Resumindo:
O Rei está à frente de todos na mesma proporção em que o Sol ultrapassa a Lua - ngonde podi vioka ntangu ko, e o próprio filho do Rei nada pode sem o pai - livembo liami likele.

Além disso, o súbdito está para o Rei como a palma das mãos está para o homem: é escrava das suas necessidades (mesmo das mais vergonhosas) e vontade-nkanda likoko: mvika lieso.

Qual, então, o papel do súbdito? Obedecer ao Rei (o bater das palmas das mãos terá essa significação) mesmo que não seja nosso amigo, antes pelo contrário - nkanda likoko li sakilila mbene.
 
 

O que acabamos de apresentar é mais do que suficiente para dar uma ideia do simbolismo entre os Cabindas.

Desde sempre teriam eles simbolizado desta forma as suas ideias? Não é de crer.

A necessidade ou, pelo menos, a utilidade tê-los-ia levado a fazer testos muito simples a fim de substituírem as folhas de bananeira, usadas, ainda hoje, para tapar as panelas.

As esteiras, a princípio, seriam para os resguardar da frialdade e sujidade do solo.

Mas, ao útil, pouco a pouco, teriam juntado o agradável, ornando os testos com figuras e tecendo as esteiras com cores e feitios.

Com o andar dos tempos, depois de nesses trabalhos terem feito trabalhar e tomar parte as mãos e os olhos, fizeram entrar a cabeça, a inteligência e o espírito.

Por exemplo:

Ubaka itimba kímona:
Ku loza nkodi ko.

Quando tens um cachimbo novo:
Não deites fora o velho.

Itali bata kuika:
Kaza muntu limonho kuikuanga ko.

O machado força-se (para se lhe meter um cabo):
Mas uma pessoa não se força, não se violenta.

Procuraram, então, nos objectos materiais o que mais facilmente lhes fizesse lembrar os seus conceitos morais.

E assim, gravando estes sinais e imagens nas tampas e testos, nas panelas e nas sangas, etc., etc., conseguiram fazê-las «falar».

Os testos, esteiras, cabaças, etc., passaram a ser - como tivemos ocasião de ver e «ler» - códigos, livros e cartas.

Vamos, depois, encontrar nas bodas dos casamentos a família da noiva cobrindo as panelas de «muamba» e da «saca-folha» - e mais comida, que serão enviadas à família do noivo, com tampas, testos, cheios de provérbios adequados ao acto e que mostrarão ao noivo como. querem que a noiva seja tratada. E vice-versa.

Os noivos, ainda pouco habituados à decifração desses «hieróglifos», serão ajudados pelos velhos.

Na vida de casados, a mulher, se não quiser dar-se ao trabalho de falar ao marido arguindo-o dos maus tratos recebidos, mandará fazer um testo com um provérbio adequado, cobrindo com ele a panela da refeição do marido. Este, se não é absolutamente leigo nestas decifrações e leituras, logo saberá o que a mulher pretende e pelo provérbio saberá de que o acusa.

O marido, por sua vez, pode do mesmo modo chamar a atenção da esposa e fazer-lhe notar o que sente a respeito dela.

Se lhe oferecer um testo com um rouxinol, a mulher terá que o entender do seguinte modo:

Lin gundu-munu kanhevina nsala:
Isalu kiandi tuba toka.

O rouxinol não é bonito de penas:
O trabalho dele é só cantar.

Deste modo, a mulher ficará a saber que o marido a toma por muito palradeira e por bem pouco amiga do trabalho.

Com as esteiras dá-se o mesmo.

O marido vadio não deve admirar-se se a esposa lhe oferecer uma esteira com o nkuvu natina muanza. Compreenderá que a mulher o quer acompanhar para bem dele e dela.

E quando as cousas passam da medida, o marido acordará, certamente, com uma esteira aos pés da cama que poderá ter o provérbio seguinte:

Ntumbuluila:
minu ienda kuami.

Desengana-me: (e) eu vou-me.

As raparigas solteiras cedo começam a fazer esteiras.

Quando já as fazem com certa habilidade e perfeição, uma ou outra vez, são oferecidas, como oferta de namorada, ao namorado ou noivo - nkundi.

Como o noivo ficará satisfeito e encantado com à submissão de sua amada se receber uma esteira com o

Nnenina kuaku:
Minu veka iza takana.

Podes fazer de mim o que quiseres:
Eu é que vim ter contigo, sou toda tua!...

Não é uma linda prenda e uma interessante carta?
Tudo isto não é muito mais do que simples arte?

Quantas maravilhas descobriremos se nos dermos ao trabalho de conhecer profundamente a Cultura dos Cabindas!
 


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