Mais revelações na venda de armas e branqueamento de dinheiro entre Paris e Luanda
Escândalo Franco-Angolano

Por ANA NAVARRO PEDRO, em Paris
Sábado, 9 de Dezembro de 2000

O escândalo envolve o filho de um ex-chefe de Estado, um antigo presidente do BERD, um ex-ministro do Interior, o russo Gaidamak, agentes secretos quanto baste e mercadores de canhões. Todos aparecem em documentos ligados a uma fraude de branqueamento de dinheiro entre a França e Angola.
Segundo o semanário satírico francês "Canard Enchaîné", a recente prisão em Paris de um mercador de armas, Pierre Falcone, "perturbaria seriamente o sono do Presidente angolano, José Eduardo dos Santos". O franco-brasileiro Pierre Falcone é um dos principais fornecedores de armas do Estado angolano. Foi conselheiro da SOFREMI (empresa mista de vendas de equipamentos do ministério francês do Interior) e é um mercador de canhões conhecido em África e na América Latina.
Falcone tem um sócio inseparável: o multimilionário russo (naturalizado francês) Arkadi Gaidamak, próximo dos dirigentes do Bank of New York, nos EUA, envolvidos há um ano no escândalo que ficou conhecido como o "Kremlingate". Os banqueiros foram acusados pelo FBI de terem branqueado dez mil milhões de dólares provenientes da corrupção na Rússia. Na sequência da "chegada" de Gaidamak e de Falcone a Luanda, vários grupos angolanos tinham contas no Bank of New York.
Durante muitos anos, Falcone foi "intocável" em França: ele tinha sérios apoios na contra-espionagem francesa (DST) e nas principais empresas da indústria do armamento, como a Thomson ou a Giat.
Mas, ao investigar uma importação ilegal de divisas a partir de Marrocos, a justiça francesa desemboscou uma engrenagem de branqueamento de dinheiro e de tráfico de armas que abrange personagens tão diversos como Falcone, um antigo ministro do Interior gaullista ou um filho do defunto Presidente socialista François Mitterrand, entre outros.
Para o "Canard", "só um bocadinho de dinheiro" angolano une pessoas de mundos tão diferentes. Contudo, à medida que o "puzzle"se vai formando, é de crer que as insónias serão mais violentas em Paris do que no Palácio do Futungo, em Luanda, onde os laços do poder com a parelha Gaidamak-Falcone já não eram segredo (ver edições do PÚBLICO de Janeiro de 2000).
À partida, dois juízes parisienses suspeitavam de que o advogado Allain Guilloux estaria a facilitar uma banal operação de branqueamento de dinheiro entre a França e Marrocos. Numa rusga ao seu escritório, descobriram outros documentos, que os colocam na pista da fraude de branqueamento de dinheiro entre Angola e a França.
Esses documentos levaram os magistrados a efectuarem rusgas, na semana passada, nos escritórios e nos domicílios de Jean-Christophe Mitterrand, filho mais velho do defunto Presidente da República, e também nos de Jacques Attali, durante muitos anos a "eminência parda" de François Mitterrand e ex-presidente do BERD (Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento)..
A justiça francesa suspeita que Attali e Mitterrand trabalharam em missões duvidosas em Angola, por conta de uma empresa eslovaca de venda armas dirigida por Pierre Falcone e Arkadi Gaidamak, a ZS Ozos.

"Executor de tarefas sujas"

Segundo o "Canard", o nome de Thierry Imbot, filho do general Imbot, um antigo chefe dos serviços secretos franceses, aparece no mesmo documento. Thierry Imbot morreu há escassas semanas em Paris, sem testemunhas, ao cair da janela do seu apartamento num quinto andar. Mas o caso não fica por aqui: vinte e quatro horas antes de investirem nos domicílios de Attali e de Mitterrand, os juízes tinham dirigido rusgas em casa e no escritório de um curioso personagem, Jean-Charles Marchiani.
Este antigo agente secreto tornou-se no homem de terreno ("executor de tarefas sujas", dizem os seus inimigos) de um ex-ministro do Interior gaullista, Charles Pasqua. Marchiani foi citado várias vezes em tentativas e golpes de Estado na África francófona.
Em 1995, Marchiani conseguira a libertação dos pilotos franceses detidos pelos sérvios da Bósnia. Nomeado governador civil pelo actual Presidente da República, Jacques Chirac, Marchiani apressou-se a condecorar o russo Arkadi Gaidamak, em agradecimento pelas suas "intervenções" na libertação dos pilotos. O apartamento e os escritórios de Charles Pasqua foram também alvo de rusgas da justiça, por suspeitas de que o RPF, partido fundado há dois anos pelo antigo ministro do Interior, teria sido financiado em parte pela "generosidade" de Falcone e de Gaidamak, precisamente pelo intermédio da venda de armas da ZS Ozos a Angola. O que Pasqua desmente categoricamente, insistindo em que não conhece Falcone e que só viu duas vezes Gaidamak.
Embora sem ligações directas entre todos eles, os nomes de Pasqua, Marchiani, Mitterrand e Attali aparecem em documentos associados à ZS Ozos. Esta companhia tem sede na Eslováquia, mas as autoridades suspeitam que Falcone e Gaidamak se servem dela para camuflarem as actividades de uma outra empresa que dirigem em França, a Brenco International.

O "Kremlingate"

Ora, os mesmos documentos teriam revelado que os contratos de armas da ZS Ozos com Angola passaram por uma conta aberta no banco Paribas, em Paris, controlada pela Brenco International. Falcone foi preso, e Gaidamak não dá sinais de pensar regressar a França tão cedo.
Gaidamak e as suas ligações com o "Kremlingate" e a sua "compra" a desbarato da dívida angolana à Rússia já tinham sobressaltado Paris, no ano passado. Segundo a edição de Novembro de 1999 da publicação confidencial "La Lettre du Continent", uma reunião informal reuniu então no Eliseu militares, diplomatas e agentes secretos, para tentar determinar se a "França não corria o risco, um dia, de aparecer implicada numa extensão do 'Kremlingate' em Angola".
Alguns dos protagonistas russos do "Kremlingate" tinham responsabilidades na reescalonamento da dívida de Angola à Rússia. Gaidamak era também administrador de um banco russo, o Menatep, que operava nos circuitos de financiamento do petróleo angolano.
Este caso apresenta mais uma coincidência curiosa: Allain Guilloux, o advogado na origem da pista angolana, é também o ponto de partida de um outro escândalo que ameaça agora o próprio Presidente Chirac. Foi Guilloux que fez com que fosse divulgada a famosa cassete Méry, com as confissões póstumas de um tesoureiro oculto do partido do Presidente, que lançou os juízes na pista do Eliseu.


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