Indice | Cap.I | Cap.II&III | Cap.IV | Cap.V | Cap.VI&VII | Cap.VIII | Cap.IX | Cap.X | Cap.XI & XII | Cap.XIII & XIV | Cap.XV | Cap.XVI | Cap.XVII | Cap.XVIII&XIX  | Cap.XX | Cap.XXI | Cap.XXII  | Cap.XXIII | Apendix

CAPITULO  IV

OS HABITANTES DO PAíS DE CABINDA

Vários dados deste capítulo foram possíveis com a ajuda mútua e intercâmbio entre - o autor e o P. J. Troesch, no Missão Cat. do Lukula-Zenze em 1945/46.

Mas que povos, clãs, habitam hoje o actual País de Cabinda?

Já no nosso trabalho «Sabedoria Cabinda» dissemos que os povos do País de Cabinda (abrangendo todo o País) eram povos bantos da tribo Bakongo, do Reino do Congo

   Mas a tribo Bakongo tem vários clãs. E, em Cabinda, encontramos os seguintes: Bauoio, Bakongo, Balinge, Baluango, Basundi, Baiombe, Bavili e um mui pequeno clã, praticamente desaparecido e do qual hoje pouco ou nada se fala, o Bakoki, que vivia ao longo da costa marítima, dado à pesca, começando junto à foz do Lulondo, no Buku-Mazi, até quase à lagoa da Massábi.

Povos bantos vindos de onde?

Ralph Delgado escreve:

«Aos próprios «filhos» assistidos pelo grande Nganga-Ngoio enviou-os, através do Zaire, e foram eles os fundadores dos «Reinos» de Kakongo e Luango, Um terceiro filho, nascido de uma escrava branca, supõe-se ter sido o antepassado dos «Condes» de Sonyo ou Soyo. Primitivamente o Rei de Kakongo, antes de subir ao trono, era obrigado a desposar uma princesa de sangue real do Congo, ao passo que o Rei do Luango devia casar com uma princesa de Kakongo.»

Em A. FeIner, podemos ler: «Chegamos ao Zaire e encontramos os Congueses estabelecidos na margem esquerda e para sul. Era um povo migratório. Tinham vindo do interior, depois de desavenças de família, ou pela necessidade de expansão.

Encontraram, talvez, algumas famílias de ambundos que, após pequena resistência fugiram dos invasores, indo para o sul e interior, juntarem-se aos seus.

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«Ao mesmo tempo outros seus parentes se estabeleceram no Goio e Luango, para o norte. Quando chegamos, o seu domínio não estava absolutamente consolidado e, o seu Reino, não tinha verdadeira unidade. De princípio, ajudamo-lo nas guerras contra Zenga e Mazinga, ou contra os Anzicos, depois contra os Panzelungos...... » (A. A. Felner, op. cit., pág. 83.)

Os Anzicos e Panzelungos (ou Panzelumbos ou Panzualumbos, como outros escrevem) viviam a norte, na margem direita do Zaire. Os Anzicos, no interior. Panzelungos, junto ao mar. E seriam estes, os Panzelungos, que cederam lugar aos «outros seus parentes (do Rei do Congo)» para se estabelecerem no Ngoio, Kakongo e Loango.

A primeira referência a Anzicos e Anzicana pode ver-se no Esmeraldo de Situs Orbis, de Duarte Pacheco Pereira: «Item, adiante de esta terra de Conguo, à parte do nordeste he sabido outra província a que chamam Anzica e ho Senhor ha nome aguora em nossos dias em Cuqua Anzico.

Estes são negros como os do Conguo e som ferrados na testa ou fronte em rroda à maneira de caracol ... »

(In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira - Lisboa, Rio de Janeiro - 4.0 Vol. na palavra de Anzica ou Anzicana.)

Neste descrever de testas ou frontes «ferradas» não podemos ver referência a outra coisa que não seja a tatuagem desses povos e que teriam deixado bastos traços seguidos mais tarde pelos Basundi e Baiombe, clãs mais no interior e a terem possível contacto mais directo com os ditos Anzicos.

Quanto a Panzelungos podemos ler no artigo de M. Fidalgo - em «Trabalho» - No 20 Boletim do Instituto do Trabalho:

«O conhecido e célebre Reino do Congo teve como partes integrantes e mais tarde só tributárias os Reinos de N'Goio, Cacongo e Loango, que, no entanto, na Corte Portuguesa eram conhecidos pela designação genérica de Cabinda, estendendo-se do Rio Quilo ao Zaire, se adicionarmos a sul do N'Goio o Reino de Benda ou M'panzu-Lumbu.»

Junto ao mar estaria, sim, o dito Reino de Panzelungo mas que, com a emigração das gentes do Congo teria cedido o lugar aos que formaram o Reino do Ngoio. O antigo Reino do Ngoio vinha até ao Zaire estendendo-se pela sua margem direita até, pelo menos, à actual cidade de Boma, da República do Zaire.

Quais os limites dos antigos Reinos de Kakongo e Ngoio, que ainda hoje ocupam a maior parte do actual País de Cabinda?

O Reino de Kakongo, tendo o mar como fronteira poente, ia da margem esquerda do rio Loango-Luizi até à margem direita do rio Lulondo, no actual Buku-Mazi.

O Lulondo, outrora, chamar-se-ia também Mbele, tomando este nome de um recife que se encontrava quase em frente da sua foz e que por ter certa configuração com uma faca (Mbele) esse nome lhe deram.

Para o interior, o Reino de Kakongo estendia-se quase até terras do Maiombe e flectia para sul quase até Boma. O Kalamo, pequeno riacho junto a Boma, faria de fronteira com o Reino de Ngoio.

O Reino de Ngoio:

Com o mar a poente, era limitado, a norte, pelo Lulondo (também limite de Kakongo) ao sul, pelo Zaire e estendendo-se para o interior até ao Kalamo, junto a Boma, sendo esta terra ainda pertença do antigo Reino.

As terras do nosso actual Kakongo e Ngoio foram delimitadas, depois da Conferência de Berlim - 1885 - por acordo internacional entre o Estado Independente do Congo, actual República do Zaire, e o nosso Governa, ficando a haver no território da República do Zaire também gente do clã Bakongo e Bauoio, ainda que as suas sedes hajam permanecido do nosso lado.

Note-se, porém, que, para assuntos do clã, a fronteira geográfica demarcada pelos europeus pouco ou nada lhes interessa.

Não nos ficam dúvidas, baseados em dados certos da história, de que as gentes do Congo, parentes e descendentes do Rei do Congo, vieram ocupar, em tempos remotos, as actuais terras do País de Cabinda.

Esta história é fortemente confirmada pela tradição contínua desta gente.

A originalidade, sabor e beleza dessa tradição mais valor dará a este trabalho.

Está na mente de toda a gente destas terras a origem, em sangue e costumes, que a liga aos de Mbanza kongo (hoje S. Salvador do Congo).

Mbanza Kongo tornou-se, depois de Diogo Cão e da ida dos missionários, que levaram os primeiros e verdadeiros sinos para aquelas terras, em kongo Lingunga - Congo dos Sinos.

Aponta-se o nome de Nzinga-Nkuvu como sendo o Rei do Congo na altura da chegada de Diogo Cão e que veio a ser baptizado em 1491, recebendo o nome de João. Ficou a ser o D. João I do Congo.

Parece estar fora de discussão que se deu uma emigração dos povos de Mbanza Kongo.

Também não restam dúvidas de que essa emigração se deu antes, mesmo muito antes, da chegada de Diogo Cão.

As lutas de que se fala e a ajuda que demos com os homens de Rui de Sousa contra Anzicos e Panzelungos era, certamente, para afastar tentativas de nova ocupação desses povos e para consolidação das conquistas feitas pelos Bakongo.

Na verdade, se essa emigração tivesse tido lugar depois de Diogo Cão ou Rui de Sousa, os nossos relatórios e crónicas não deixariam de mencionar o facto.

A tradição afirma terem sido nove - 9 - os sobrinhos ou familiares do Rei do Congo a deixarem a sede. «On ne sort guère des 9 tribus de Bakongo venus du simu Kongo il y a des siècles (avant Diogo Cão)». Assim me escrevia, textualmente, o P. Bittremieux, e acrescentava: «En réalité ils sont tous frères, ou cousins.»

Teriam deixado Mbanza kongo todos ao mesmo tempo? Teriam saído à medida que a gente aumentava e a terra se tornava pequena? Expulsos? Seria por ânsia de mando, desejo de aventuras?

Nada de concreto parece existir a este respeito. Muito pouco ou nada se encontra sobre povos que viveriam nas terras, agora dos Bakongo e Bauoio, e se houve grandes e repetidas lutas com os que nelas habitavam.

Certa parece ser a emigração. E o estudo destes povos vem comprovar a tradição de que teriam sido nove sobrinhos do Rei, do Congo a deixar Mbanza Kongo. Estes nove sobrinhos deram origem aos nove clãs descendentes do Rei do Congo.

A tradição ainda acrescenta que estes eram filhos de VUA LI MABENE -a de NOVE SEIOS.

E a imaginação dos naturais chega a tomar à letra o Vua li Mabene: que, na verdade, teria havido uma mulher com nove mamas, mãe dos sobrinhos do Rei do Congo que se dispersaram pelas actuais terras que se chamam dos Bakongo.

VUA Li MABENE teria sido, antes, a mulher, a mãe (NGULI) da qual descendem os nove clãs.

Encontraremos, no decorrer desta obra, o número nove com certa frequência. É o número dos descendentes de Vua Li Mabene. O número - 9 - tornou-se sagrado para estes povos.

Os sobrinhos do Rei do Congo teriam atravessado o rio Zaire (Nzadi) perto de Matadi (o Matari dos antigos). Quais são os nomes desses nove sobrinhos ou nove descendentes do Rei do Congo? Concordam todos em que são nove. Diferem nos nomes. Mas, atendendo à facilidade com que o indígena destes clãs muda de nome em certas circunstâncias - e para isso teremos um capítulo - podemos perfeitamente admitir a diversidade de nomes e diferenças nas listas desses descendentes de Vua li Mabene. Os nomes que vão seguir-se correm na tradição.
 

              O P. Bittremieux dá-nos a lista seguinte:

Ntinu Makaba (o que repartiu as terras)
Phudi Nzinga
Makhuku i Ntínu
Manianga Makongo
Numbu Nzinga
Ngímbi i Khota
Nanga Nakongo
Mboma Nakongo
Mbenza Nakongo

                 Lista de Mgr. J. Cuvelier:

Ndumbu a Nzinga
Manianga
Nanga
Mankunku
Ngimbi
Mbenza
Mpudi a Nzinga
Mboma Ndongo
Makaba

              Nas listas recolhidas pelo P. José Troesch e estudadas por nós, pedindo ou procurando a confirmação entre os naturais, vamos até três listas.

1.a LISTA                                                       2.a LISTA

Nlaza Kongo - Makaba                              Laza Kongo - Makaba
Mbenza Nakongo                                      Mbenza Nakongo
Nanga Nakongo                                        Nanga Nakongo
Gimbi Nakongo                                         Tsuku Kongo
Kongo Limboma (Sundi?)                          Khazi Nakongo
Manhanga Nakongo                                  Madungo Nakongo
Mabinda Nakongo                                     Manianga Nakongo
Tuku Nakongo                                           Fumu Kikongo
Makuku Ntinu (Luango)                             Phudi Nakongo
 

 Uma terceira lista, a mais admitida:

Nlaza Kongo - Makaba
Mbenza Kongo
Maianga Nakongo
Nanga Nakongo
Ngimbi Kongo
Kongo Limboma
Pudi Kongo
Makuku Ntinu
Mbínda Kongo

Se com fundamento verdadeiramente histórico pouco ou nada temos a respeito das causas da emigração de Mbanza Kongo, vamos buscar à tradição dos indígenas algumas interessantes versões dessa mesma emigração.
 

    Uma versão, apresentada pelo P. Troesch.

O Rei do Congo habitava uma terra muito longe, da outra banda do Zaire. A administração do Reino não lhe tomava todo o tempo. Tinha até tempo bastante para se divertir. E gostava imenso de esvaziar cabaças de vinho de palma.

Ora, um dia, já bêbado, mandou o seu escravo buscar mais vinho.

Achou o Rei que este vinho, agora trazido, tinha um gosto particular. Talvez já estivesse muito fermentado. Acusou por isso o escravo de ter tentado envenená-lo e mandou-o degolar imediatamente. Depois, não querendo ficar mais tempo naquela terra, juntou toda a sua gente e pôs-se em marcha.

Uma segunda versão, esta, muito espalhada em terras de Kakongo e tirada de manuscritos dos naturais, inclusive dos que se encontravam na posse do Kapita de Kaio-Kaliado.

É como seque:
Makongo era o sobrinho mais velho do Rei do Congo. Com os seus oito irmãos vivia em companhia de seu soberano tio em Mbanza Kongo.

O Rei tinha um escravo chamado Lenchá a quem tinha grande afeição por ter sido este escravo o primeiro a extrair o vinho de palma e o azeite do dendém.

As «muambas» e o vinho de palma faziam as delícias de sua alteza. Por isso estimava, a mais não poder ser, o seu bom e habilidoso escravo Lenchá. Este, um dia, querendo levar mais longe as suas experiências na extracção do vinho de palma, deixou-o fermentar uns três dias. E, assim fermentado, levou-o ao Rei que, achando-o magnífico mas não sabendo a força do vinho (faz lembrar o pai Noé), bebeu como de costume.

Resultado? Sua alteza apanhou uma valente - a primeira! - bebedeira.

Makongo e os irmãos que «não sabiam a vida de beber» (síc) ao entrarem na casa do tio, vendo-o naquele estado, julgaram-no em vias de morrer. As mulheres do Rei disseram-lhes ter sido o Lenchá quem havia dado vinho ao rei e que este, depois de o beber, havia ficado assim («que foi o escravo do Rei mesmo que deu com ele vinho de palma é que está a fazer com ele assím»).
Lenchá envenenou o Rei, pensaram eles.
«Mas, antes que nosso tio morra, morrerá ele primeiro.»

«Então os Sobrinhos do Rei do Congo azangou e levou este escravo do Príncipe do Rei do Congo para longe do pianista e queimou este escravo» (sic).
Levaram-no, ao Lenchá, para uma planície e aí o queimaram vivo.
Feita a obra, voltaram para junto do tio a fim de assistir ao seu último suspiro que, julgavam, não viria longe.

Passados tempos, o tio suspirou de verdade! Era o fim da bebedeira. Estranhou a presença de toda aquela gente. Mas a primeira coisa que fez foi perguntar por seu querido escravo Lenchá.

Contaram-lhe o sucedido.
Desgraçados, que fizestes? «Malditos vos todos que matou meu servo vos todos morra de mártir e queimo vos no fogo porque me mataste o meu bom servo que me mostrou dêndes e vinho de palma» (sic).

O castigo do Rei era queimar os sobrinhos como eles haviam queimado o seu servo Lenchá.
E nada houve que apaziguasse o Rei.
Para escaparem à cólera e vingança do tio, Makongo e seus irmãos trataram de sair de Mbanza Kongo atravessando o rio Zaire.

Esta versão é, sem dúvida, muito original mas não deixa de se coadunar com a psicologia e mentalidade desta gente.

Se, ainda hoje, o roubo de uma garrafa de vinho de palma, e já não há monopólio nem segredos no seu fabrico, dá origem a grandes questões e grandes multas, como é que o Rei do Congo, déspota como foi toda a autoridade gentílica, o único a beber vinho de palma, tendo um só escravo que o sabia fazer, como não deveria ele ter ficado ao ver-se sem vinho e sem o seu fiel Lenchá?

E a tradição, na ânsia de distribuir os sobrinhos do Rei do Congo pelas terras fora, continua...
Makongo, pois, com seus irmãos, fugiu. Como era o mais velho, foi distribuindo as terras pelos outros.

Atravessaram o Zaire (Nzadi) em Nsanda-Nzondo.

Ele, Makongo, veio fundar a sua aldeia - buala - em Kiengele (outros dizem Kingele), planície existente a sul do rio Lukula junto à fronteira Leste do País de Cabinda com a actual República do Zaire. Na segunda metade do Séc. XIX a sede mudou-se de Kiengele para Kaio-Kaliado, na área do Posto Administrativo do Tando-Zinze.

Segundo a mesma tradição, veio com o Makongo uma sua irmã de nome Mangoio. Insistiu ela com Makongo para que a deixasse ir viver para junto do mar. Makongo, depois de muito instado, permitiu.

Deu-lhe gente e escravos. Entregou-lhe também um Nkisi protector metido num cesto (Ntende). Ao fazer-lhe a entrega do feitiço recomendou-lhe: «Torna este nkisi para que guarde a tua terra. Livra-te, porém, de o colocares no chão.»

Partiu Mangoio e a sua gente em direcção ao mar.
A viagem era longa para ser feita de uma só estirada. Acamparam, pois, ao anoitecer, junto de um pequeno bosque.

Ao levantarem-se no dia seguinte para continuar a viagem, reparam que lhes é impossível arrancar do chão o Ntende com o Nkisi.
Enviaram um homem a Makongo a contar o que havia sucedido.
Veio ele, o Makongo, e fez reparos severos a sua irmã Mangoio:

«Não te disse que não devias deixar que colocassem o cesto no chão? Agora este cesto ficará cá para sinal e este bosque chamar-se-á NTO NTENDE ( - o bosque do cesto). Aqui será também o limite de nossas terras e será neste limite que teremos os nossos encontros para tratarmos dos assuntos de nossos reinos. Jamais virás a Kiengele e eu nunca passarei daqui para ir ao 'mar.»

Nota - Ainda hoje se conhece «Nto-Ntende» junto ao rio Lulondo, na estrada de Cabinda a Tando-Zinze. É este rio que vai desaguar junto ao Buku-Mázi e faz a divisão entre as terras de Cacongo e de Ngoio.

Da boca dos negros se houve ainda dizer que antigamente o Makongo não podia ir até ao mar e que, de facto, nunca ia.

Neste Nto-Ntende e nesta divisão de terras de Cacongo e de Ngoio não podemos deixar de ver a tradição ligada a certos factos.
 

     A versão apresentada em «Nós, OS CABINDAS .»
(D. José Domingues Franque, «Nós, Os Cabindas», págs. 15 a 19.)

A Princesa Mue Puenha, de S. Salvador (Mbanza Kongo) teve relações ilícitas das quais nasceram três filhos gémeos.

Essa ilegalidade teria sido por ter praticado essas relações antes de passar pelas cerimónias da puberdade. Os conselheiros do Rei pediram a expulsão da princesa, a que ele teve de atender ainda que contrafeito, tanto mais que se deu uma grande escassez de chuvas atribuída à falta cometida pela princesa.

Mue Puenha deixou S. Salvador com algumas pessoas de família em direcção ao litoral, para Sonho (S.to António do Zaire).

Foi sempre mal recebida e até perseguida. Mue Puenha, 15 anos depois, após muitas peripécias, trabalhos e até milagres (o da travessia do Zaire) chegou ao Reino de Ngoio onde por todos foi bem recebida, especialmente por Mibimbi Pukuta, que era rico e nobre.

Dos seus três gémeos, um era rapaz, Tumba, e duas eram raparigas, Lilo e Silo.
Mue Puenha veio a casar com Mibimbi Pukuta. Deles nasceu Mue Panzo e mais tarde um outro filho que tomou o nome de Mue Pukuta.

O Rei do Congo, sabendo que sua filha Mue Puenha havia casado, ouvido o parecer de seu conselho, resolveu desanexar os pequenos Reinos de Ngoio, Cacongo e Loango. Deu ordem a Mue Puenha para tomar conta dos três Reinos.

Mue Puenha entregou Cacongo a sua filha Silo e Tumba foi para o Loango-Grande. Mue Panzo, filho de Mue Puenha e de Mibimbi Pukuta, ficou como Rei de Ngoio.

A versão dos Basolongo fornecida pelo P. Marchal, da Missão de Santo António do Zaire.
O Rei do Congo tinha um sobrinho de nome Nenzinga Nakongo a quem dedicava uma afeição muito especial e uma confiança ilimitada.

Tal era a confiança que o Rei nele depositava que, um dia, o deixou só com uma de suas mulheres, de nome Nkato, - que se encontrava grávida e já muito perto de dar à luz.
Nenzinga Nakongo, querendo saber qual a posição da criança no ventre materno, abriu Nkato de alto a baixo.
Vamos lembrar que entre os Bakongo se afirma o mesmo do Kapita Muempolo em um manuscrito, cuja cópia possuímos.

Diz esse manuscrito, falando do Kapita Muempolo: «Depois de ser altura da sua idade se a leviu uma viço mal quando ver a mulher que está engravide matava para ver como se informa a criança na bariga, Vendo um homem na palmeira dava tiru para ver se como-se caia um homem na palmeira»...

Mas voltemos a Nenzinga.

O crime que cometera bradava aos céus. A família de Nkato pede a morte de Nenzinga e não recua perante nada. Em face da insistência dessa gente nem o amor que lhe dedicava o tio podia valer a Nenzinga. É condenado à morte.

Valeu-lhe, de acordo com uns amigos fiéis, um embuste igual ao do que se serviram os irmãos de José (da Escritura) para enganarem o pai Jacob. O sangue de um cordeiro substituiu o de Nenzinga.

Mas, como entre eles não há segredos, tudo se veio a saber.
Nenzinga, com seus amigos e cúmplices, fugiu.
Pelo caminho os seus companheiros, pouco a pouco, foram dispersando.
Nenzinga foi estabelecer-se no Songo (Sonho ou Soio), onde já havia estado, e dele descendem os Basolongo.

Mgr. J. Cuvelier na sua obra «L'Ancien Royaume de Congo» apresenta-nos a versão e tradição que segue: (J. Cuvelier, «L'ancien Royaume de Congo», Desclée de Brouwer, L'édition Universelle, Bruxelles, 1946, pp. 13/14).

Era Ntinu Wene, o primeiro Rei, quem governava aquelas terras de Mbanza Kongo. Tinha feito muitas conquistas. Tendo, por fim, submetido Mbumbulu, Chefe de Mpangala, foi fixar-se em Mbanza Kongo.

Distribuiu, então, os seus territórios pelos seus capitães dando a cada um uma província pelo tempo que a ele, Ntinu Wene, muito bem conviesse.

O lugar onde se fez a distribuição ficou a chamar-se, já que era um morro, «Mongo ua kaba» monte da divisão, da distribuição.

Antes dessa distribuição cantaram e dançaram uma dança de triunfo, umas vezes todos, outras dois a dois, outras um de cada vez.

O Rei sentia-se alegre. Entra em casa e aparece, então, com as insígnias de sua realeza: o cutelo (kimpaba) a «nsesa» ou cauda de pacaça. Disse-lhes: «Dançai dois a dois. Voltai novamente a dançar para mim essa vossa dança triunfal porque quero abençoar-vos.

Esta benção será honrada em toda a parte onde Reinardes, vás e vossos sucessores, até aos confins da terra de nosso domínio"

Depois da dança ajoelharam junto do Rei. Recebendo estas homenagens, o Rei movia o dedo mindinho da mão direita e dizia: «Crescei, engrandecei, vivei longo tempo, vinde a ser muito velhos.»

Numa segunda festa a Rei concedeu-lhes a participação de seu poder. Voltaram os eleitos a dançar e cada um por sua vez cantou e disse:

1. - Ndumbu a Nzinga

«Eu sou Ndumbu a Nzinga, planta trepadeira que se enrola em espiral. O meu enlaçamento prende todo o país.»

2. - Manianga

«Eu sou Manianga, aquele que está sentado. Eu sento-me na cadeira e no tapete. Eu dei nascimento aos Mvemba, dei nascimento aos Nlaza. Enviai-me, portanto. Para que região?»

3. - Nanga

«Nanga é coxo, mas vai até muito longe. As pedras de sua lareira são cabeças de homens. A sua colher (de tirar a comida) é uma costela de um grande peixe. Enviai-me, pois. Para qual país?»

4. - Mankunku

«Eu, eu sou o Chefe Mankunku, aquele que derruba. Eu acometi os ndembo, os tambores dos poderosos. Que não venham perturbar-me nem com o tímbalo «ngongie» nem com o tambor "ngoma". Enviai-me.»

5. - Ngimbi

«Eu sou Ngimbi, aquele que faz crescer abundantemente. As «madiadia» ou falsas canas de açúcar que cortam de manhã, ao meio dia novamente balouçam ao sol. Enviai-me, pois. Onde?

6. - Mbenza

«Mbenza sou eu, aquele que racha (que corta, fende). Não corto as cabeças de ratos, mas corto as cabeças dos homens.»

7. - Mpudi a Nzinga

«Eu sou Mpudi a Nzinga, um grande peixe, mas também um milhafre que, apesar das chamas, caça por cima do capim em fogo.»

8. - Mboma Ndongo

«Eu sou Mboma Ndongo, a serpente boa (jibóia) que deixa rastos de sua passagem. Rasteja por todo o Congo, pelo Loango. Mãe que faz bem a todos os outros clãs. Enviai-me, pois.»

9. - Makaba

«Eu sou Makaba, aquele que reparte as terras, mas as leis dessas terras ficam em minhas mãos, em meu poder. Enviai-me.»

Quanto tempo teria levado a pereginação e dispersão dos descendentes do Rei do Congo?
Ninguém poderá dizer o tempo que levou esta peregrinação até à fixação completa, conforme a encontramos e que, como já dissemos, deve ter-se dado antes da nossa descoberta do Congo.

Os homens ter-se-iam dedicado à caça e as mulheres a roçar e cultivar alguns campos, quando a demora era mais longa.
E, corno é natural, iam aumentando em número.
Foi na planície de Nsanda Nzondo, diz a tradição, que se resolveram à separação.

Na tradição encontramos unanimidade na afirmação de que era MALAZI (também tem o nome de Nlaza Kongo, ou Makongo) o primogénito e o que teria deitado as sortes para a divisão das terras.
Daqui o chamarem-lhe, também, MAKABA (de Kukaba - repartir, dividir).
E encontramos, pelo menos, duas versões a respeito desta divisão.
Vua Li Mabene, antes da dispersão dos filhos, quiz provar-lhes qual de entre eles era o mais digno e a quem deveriam obediência.

Preparou para isso um grande prato de «Mbala makamba» ou «Kuanzi makamba» (uma espécie de batata amarga).

Depois, colocando de parte o seu filho predilecto - MALAZI - disse ao segundo, Mbenza, para repartir a comida, em partes iguais, por cada um de seus irmãos. Mabenza não o conseguiu.

Vua Li Mabene chamou depois o terceiro. Nem este. Todos os outros, um por um, foram chamados ao mesmo. Nenhum deles conseguiu repartir a contento de todos e em partes iguais a comida preparada pela Mãe. Esta chamou, então, o mais velho, Malazi. E Malazi consegue dividir a comida a contento de todos.

    Segunda versão.

Maluango, Manhanga, Makaba, Mabenza saíram juntos de Nsanda Nzondo. Juntos seguiram até ao rio Nzadi (Zaire).

Ali, o filho de Mabenza, Mpuli Nzinga Mambaka, matou um elefante. Houve discussão entre Maluango e Mabenza porque, tanto um como outro, se julgava com direito à melhor parte.

MAKABA dirimiu a questão dando a Maluango a mão direita, da frente, tida por ser a mais digna, e a esquerda a Mabenza.

Por isso, MALAZI, - assumindo o nome de MAKABA por ter sabido dividir bem, dizia de si mesmo e tomou como divisa de honra o seguinte :

Minu ieka Makaba,
Makaba nza i mbungi,
Mpungi nzau,
Ke landila makokila,
Mbele usimba koko ku lunkiento,
Ke iakila ku lubakala,
Buna landa Makaba
Buna ke ienda
Buna lele mu nzila.
Eu tornei-me Makaba -o que divide
Dividi o mundo e o nevoeiro,
As defesas do elefante,
Levanto-me ao cantar do galo,
Segurei a faca com a mão esquerda
E passei-a para a direita,
Para seguir Makaba
Para onde quer que vá
Terá que dormir no caminho.

E esta «divisa de honra» leva-nos a tratar e a estudar o que estes clãs chamam MVILA (pl. ZIMVILA).

Mvila (pl. Zimvila) é traduzido, em "Malongi Mat'ete Ma Kifaranse» de Fr. Mertens, por Tribo.

O P. Bittrermieux, sobre MVILA, diz o seguinte: (P. Leo Bittremieux, La Société Sécrète des Bakimba au Mayombe».)

«Le mot mvila (pl. zimvila) a diverses significations. Le sens fondamental me parait être celui de «species», comme ont dit l'èspece humaine, «species Jacob», Ia descendance de Jacob, sens restreint ensuite:

1. - Aux clans famíliaux, spécialement aux -neuf familles ancestrales des Bakongo mayombiens, dont nous avons déjà parlé;

2. - Aux genres ou groupes, ainsi qu'aux formules sacrées et aux adjurations propres à tel groupe, tel fétiche, telle cérémonie. Dans un sens plus général, mais qui vient moins à propos dans le sujet qui nous occupe, on entend parfois mvila pour: manière d'être ou de faire, variété.»

Na verdade, só temos encontrado o termo MVILA no sentido de descendência e, especialmente, no de divisa, como que escudo de armas da família, pelo qual se diferenciam umas das outras.

Portanto, empregamos aqui o termo MVILA como título de honra, nobiliárquico, divisa de família, de cada uma das famílias - mas só de algumas as conseguimos descendentes do Rei do Congo.
 

    A divisa (MVILA) de MAKONGO (do próprio Rei ao Congo):

«Minu Kongo Lingunga,
Li me kongila zimvila zionso,
Kuienda kuanda Kongo, liambu ve,
Kuienda kumongo Kongo, liambu vê,
Minu veka impuili.»

Sou Kongo Lingunga,

Eu junto as famílias todas,
Indo para o baixo-Congo, não há questão (ninguém me impede),
Indo para o alto-Congo, não há questão (também),
Sou eu quem o quer, quem manda nessas terras todas.»

Já fizemos notar que o Rei do Congo (e seu Reino) se começou a chamar Kongo Lingunga depois que os nossos - missionários levaram os primeiros sinos.

Mas também não era absolutamente necessário haver sinos para convocar as gentes. Faziam-no, e ainda hoje o fazem, através do tantã, de tambores, do tímbalo «ngongie», etc., etc.
 

       A divisa (MVILA) de Makaba:

Apresentamos urna mvila de Makaba quando, há pouco, falamos da segunda versão a respeito da emigração e peregrinação das gentes de Mbanza Kongo. Por ter sabido dividir a contento de seus irmãos o prato das batatas e o elefante, mudou o seu nome de Malazi ou Nlaza Kongo para o de Makaba - aquele que divide. Foi ele, dizem, que também dividiu as terras pelos outros seus irmãos. Ninguém lhe regateia poder e mando absoluto. E, então, afirma de si mesmo:

«Benu lumona mpunzu mu nlangu,
Buna minu nsabukuizi,
Vana kandama mu buatu,
Kuiza tumisia mvika mueka,
Kuiza lambalela vana nlondo,
Kuiza nangika ku kulu,
Kuiza banda sabala mu ntima,
Vangioko kuiza kandama mu buatu
Buna ke banda sabala mu ntima,
Menga kuiza ienda mu mazi,
Bau basiala kumbusa,
Buna bumona menga,
Babu bazaba m'au,
Nfumu itu Ntinu Makaba sabukuizi,
Vana ke sensa vana lilondo likiongo,
Kuiza lambalika mvika mueka,
Kuiza banda sabala mu ntima.»

«Vós vedes turva a água,
Porque atravessei o rio,
Para entrar para a canoa,
Ordenei a um secravo,
Que dormiu no embarcadoiro,
Pousei-lhe o pé por cima,
Cravei-lhe uma faca no coração,
E foi então que subi para a canoa,
Depois de lhe ter cravado a faca no coração,
E o sangue correu para a água,
E os que ficaram para trás,
Logo que viram o sangue,
Ficaram a saber,
(que) o nosso Rei Makaba foi quem atravessou, o rio,
Onde se atracam as canoas no embarcadoiro do Kiongo,
Mandei deitar um escravo,
Calquei-o com um pé,
E espetei-lhe a faca no coração.»

E não se julgue que isto é um simples falar, um como que basofiar. Não. Estas e outras Zimvila, que nos dão a divisa de família, mostram bem até que ponto chegava o poder discricionário destes chefes de clã, poder de vida e de morte, para quem o escravo, sobretudo, afora o trabalho árduo que podia e devia realizar, não passaria de uma triste... coisa!
 

            A divisa (MVILA) de Masundi:

«Minu Masundi,
Minu kele lumbele lusimbu,
Ki si muana ko,
Ki si ntekulo ko,
Uonso ko uisumuna nkaka-nfumu,
Fuanikini ukiela ntu,
Vo banda muna nkondo,
Vo tula mu ivangu,
Vo koka va mbazu.»

«Eu sou Masundi (o Rei do Sundi),
Tenho a faca «lusimbu» (das execuções capitais),
Não há filhos (não olho a filhos),
Não há netos (não olho a netos),
(a) Toda o que peca contra a lei do Chefe,
É preciso cortar a cabeça,
Ou pregar no embondeiro,
Ou metê-lo na forquilha,
Ou queimá-lo no fogo.»

Mais uma amostra do poder, da força, do poder de vida e de morte destes grandes Chefes de clã. Neste clã Basundi era aos filhos do Rei defunto e aos maiorais da terra a quem competia a escolha do sucessor. Devem escolher o de mais saber e o que mais qualidades demonstrar ter para o governo do clã. Se o «Kinkanda», pequeno animal roedor, por pequena que tenha a cauda sempre tem alguma, também aquele que deve ser nomeado para presidir aos destinos de seu povo, deverá ter o mínimo de condições e qualidades para isso.

Kinkanda ke nkila: Kete inamukunu podi kambua ko.
O «kinkanda» tem cauda: Pelo menos um bocadinho não lhe pode faltar.
Para governar é preciso, para isso, ter o mínimo de qualidades.

A eleição era em dia Nsona (correspondente ao nosso domingo) e avisava-se a gente de todos os povos. No meio da aldeia, no dia marcado, reúnem-se todos. Deviam estar sentados, e no chão o faziam.

Estende-se uma esteira e uma pele de leopardo.

O mais digno da família acompanhado de um Mankaka, espécie de polícia, procura entre o povo o eleito, já escolhido mas que, pessoalmente, de nada sabe.

Levanta-o com o dedo mindinho (já vimos o Rei do Congo, Ntinu Wene, fazer assim a cada um dos nove Chefes) da mão direita, segura e trás o escolhido pegando-lhe também pelo mindinho, mas da mão esquerda, para o meio do povo e lugar onde se encontra a esteira e a pele do leopardo.

Nessa altura toda a gente se deve colocar de pé e saudar em altos gritos o novo Rei.
Aí é revestido das insígnias reais:
O barrete (Kimpene - pl. Bimpene ou Nzita - pl. Zinzita)
A murça (Kinzemba - pl. Binzemba)
Os dentes de leopardo (Meno mangó)
Uma pele de Kingolo Kinhundu, espécie de lontra, ou de leopardo, Ngó.
 

        Nos dias de aplicação de castigos

A saída da casa do Rei espetavam, um de cada lado mas bastante juntos, deixando só espaço para o Rei passar, dois ramos de Malembo-Mpumbo.
Entre esses ramos era estendido o pano interior do criminoso, o «nlele-nfula». Ao lado, junto do «nlelenfula», colocava-se a faca «Mbele Lusimbu», a faca das execuções, que o Rei tomava ao passar.

O Rei devia fazer o trajecto caminhando sempre num só pé, chicolapé, até ao lugar do castigo, mesmo que fosse até junto do embondeiro da «crucifixão.»
No local da sentença já lá está o criminoso. Está nu.
Se o castigo era a degolação, o Rei passava a «Mbele Lusimbu» ao Mankaka que cumpria imediatamente a sentença.
Se for outro o castigo, será dito pelo Rei.
Se o homem é condenado a ser pregado no embondeiro espera-se só o tempo necessário, para se afiarem os paus. Não havia pregos.
O criminoso, no case de morte por degolação (kukiela ntu) ou por «crucifixão» (Kubanda muna nkondo - pregar no emboleiro), nunca era enterrado. Ali ficava a apodrecer e a ser comido pelas formigas, pelas abutres ou pelos chacais...

Era assim que se procedia naqueles tempos. E, o que aqui se diz do Rei Masundi, o mesmo se pode dizer, com mui pequenas diferenças, de todos os outros Chefes de clã.
 

                 No enterro do Rei

Toda a gente era avisada e convidada.
Os escravos e animais que aparecessem eram apanhados e abatidos. Tinham que se esconder para escapar.
Ao enterrarem o Rei abriam o caixão e colocavam o morto na posição de sentado e levantavam-lhe a mão direita. Nesta posição devia ser enterrado.
Com ele enterravam também uma das pontas de marfim, de entre as que todos os Reis possuíam.
Veremos, quando se falar de mortes e funerais, como mais comummente se costuma proceder.
Só a respeito de Masundi ouvimos falar nesta posição em que era enterrado.
 

           A divisa (MVILA) de Mbenza

«Mbenza,
Kabenza ko mitú mizimpuku,
Benza mitú mibantu,
Tiaba kitiaba kunhi,
Nlékila zimpati zibantu.»

«Sou Mbenza - aquele que corta,
Não corto cabeças de ratos,
Corto cabeças de homens,
Racho (cabeças) como quem racha lenha,
(e) Durmo (ao calor) das costelas de gente (que estão postas a arder como se fosse lenha).»
 

            A divisa (MVILA) de Kumbi Kongo

«Minu Kumbi Kongo,
Kongolila mambu,
Muna nganda Mazinga
Kusimba nkázi ko,
Kusimba muana ko,
Ngeie simba muan'ami muna tueki nuana.»

«Eu sou Kumbi Kongo,
Que junto as questões
No terreiro de Mazinga,
Não segura a mulher
Não segura o filho,
Se seguras o meu filho temos de lutar.»
 

       Donde o nome de Kumbi?

Kumbi apresentou-se como Rei. Mas o povo disse: para que a gente saiba que és Rei, corta a cabeça ao teu próprio sobrinho. E ele assim fez e toda a gente gritou de susto e horror. Daí lhe vem o nome de Kumbi (de Kumba - gritar).
 

          A divisa de Nanga Nakongo

«Eu sou Nanga, o coxo,
Mas vou muito longe,
As pedras da minha lareira são cabeças de homens,
A minha colher é uma costela de grande peixe.»
 

    As insígnias do Rei eram:

Como ceptro usava a planta - de Nkuisi. Quando o Rei recebia as insígnias cantavam:

«Nzau ngana lele, kotuk'abu,
lúa mambu, iúa:
A bili, bili i manga-manga
Matona mangó ai matona makikumbu.»
O elefante do outro dormiu, acorda,

Ouve a questão, ouve:

A bili, bili... (refere-se às pintas do leopardo)
Pintas da pele do leopardo e do "Kikumbu" (espécie de gato bravo).
Dentes de leão - meno mankose - e dentes de leopardo - meno mangó - e também as unhas deste - zíngongolo zingó.
Diziam que o leopardo era da família deles. Era o seu totem. Não era, por isso, tido como que um «deus» ou ser superior. Era um dos da família.
Devido a isso, sempre que matavam um leopardo por ter ficado preso em uma armadilha (doutra forma não podiam matar nem dar caça ao leopardo) traziam-no para a aldeia.
Quem dava com ele na armadilha devia avisar toda a aldeia.
A partir dessa altura ninguém - podia sair de casa ou correr a ver o leopardo morto por quem o apanhou na armadilha.

Trazia-se o leopardo para a aldeia e era colocado debaixo de uma «muanza», espécie de alpendre, pertencente aos filhos do Rei da terra.
Era embrulhado o leopardo em um cobertor e ali ficava, em repouso, até que todos, mesmo os da família do Rei, pagassem o que deviam como tributo estipulado.
Durante esse tempo havia danças. Era depois enterrado quase solenemente.
 

       Quanto à caça ao leopardo em outros clãs

À caça do leopardo ia toda a gente, mesmo o Rei.
Morto o leopardo, era levado para a aldeia. Todos os caçadores passavam o resto do dia e da noite a saltar, dançar e a cantar diante do cadáver do leopardo.
O Rei designa quem deve abrir o leopardo. É sempre - escolhido, ou era, alguém de entre os nobres.
A pele vai para o Rei. A carne e as vísceras são enterradas em cova bem funda.
O fel é derramado - passava por ser forte veneno - e a vesícula cortada em bocadinhos e lançada ao rio para que não viesse a ser usada para matar alguém.

Quando era nomeado o Rei, marcavam-no com cal e com terra de diferentes cores, procurando reproduzir as pintas da pele do leopardo.

Porque se dá o nome de Nanga Nakongo?
Além da interpretação que já vimos, Nanga, o coxo, outros dão uma segunda interpretação.

Neste clã de Nanga Nakongo, quando a uma donzela apareciam os primeiros sinais da puberdade, tinha ela de subir para uma árvore Nsanda, árvore que existia quase sempre no meio das aldeias e à sombra das quais resolviam, os chefes, os problemas e questões da terra.

E no alto da árvore ali deveria ficar a rapariga até passarem os seus dias.
Nanga viria, neste caso, de Nanguna - Levantar.
Não vamos descrever mais ZIMVILA. As que apresentamos mostram bem a «divisa de armas» das famílias, de algumas, Bakongo.

Qualquer pode notar que nem sempre coincidem os nomes dados nestas «Zimvila» com as listas dos nove descendentes de Vua li Mabene, A explicação está já dada. A mudança fácil, devido a circunstâncias várias, de nome.

Mas há uma MVILA que não foi transcrita só por que a não encontrei: a MVILA de Mangoio. Ainda em Dezembro de 1970, estando em Cabinda e procurando-a entre os velhos, mesmo entre o velho «pai» Madeka, procurando espevitar-lhe a memória com a leitura de outras ZIMVILA, nada me soube dizer, antes, que nada conhecia e que nunca tinha tido conhecimento disso.

Já no nosso trabalho «Sabedoria Cabinda» inserimos um provérbio, e seu símbolo, sobre a terra de Ngoio.
Ngoio iéki muaia:
lesiala ko fumu ina itúma.

O «Ngoio» está vazio:
Não ficou Chefe para mandar.

Na verdade, não seria pequeno problema, mesmo para os mais velhos Cabindas, procurar agora designar quem teria real direito, na linha de sucessão, a governar aquelas gentes.

O Maiombe e os Baiombe

11 y a 30 ans, le Mayombe etait toujours... plus loin, quelque part vers le Nord. (de uma carta do P. Bittremieux ao autor)

Por princípio, o termo Baiombe é dado àqueles que habitam longe, que vivem na grande floresta. Os habitantes do Maiombe, quer português, do Congo Braza ou da República do Zaire, podem até ser Bakongo, Basundi, Baluango, Balinge, etc., etc.

Só há umas dezenas de anos para cá, por vezes, se chamam Baiombe aos povos que habitam o Maiombe geográfico de hoje.

Na verdade, dos nove descendentes de Vua Li Mabene nem de seus sucessores apareceu chefe com nome de MA-IOMBE (lombe, terra e Ma designação de realeza).

Se se perguntar, seja a quem for, onde é o Maiombe, ele dirá que é lá longe, muito mais longe.

O nome de Maiombe encerra uma certa ideia de desprezo e ninguém toma isso como aplicado à sua terra. Chamar lombe a alguém é, nas mais das vezes, tomado como insulto.

Há quem defina Maiombe por terra de floresta. Não parece. Nunca é empregado neste sentido pelos indígenas.

Maiombe-e o seu sentido depreciativo - virá, certamente, do porto de Maiumba, no Reino de Loango, ao Sul do Cabo Negro.

No tempo da escravatura, Maiumba era um dos portos mais importantes desse tráfico. O que hoje se chama Maiombe era, então, uma das regiões onde mais escravos se colhiam. Por isso, os escravos embarcados em Maiumba, acabariam por ser chamados Maiombes bem como a região onde eram apanhados, comprados e vendidos...

Assim se compreende perfeitamente que ao termo Maiombe, lombe e Baiombe ande unido um forte sentido perjurativo. (Cf. Overbergh, in «  Mayombe » )

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