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CAPITULO XIII

FESTA DOS RAPAZES
A CIRCUNCISÃO BúKUA ou TíNTUA






Hoje podemos dizer que a circuncisão é:

a) - Comum entre os Bauoio;
b) - Quase comum entre os Bakongo, Balinge, Bavili;
c) - Pouco usada entre os Basundi.

Mas, mesmo onde é usada, não se reveste do aparato e do cerimonial de outras épocas.
Outrora, em tempos que ainda não vão muito longe, procedia-se do modo seguinte:
A idade escolhida era entre os 8 e os 9 anos.
No interior da floresta, em descampados, capinava-se em círculo uma certa extensão de terreno, aquela que se via necessária para comportar todos os que iam ser circuncidados.

No meio desse círculo colocava-se o operador da circuncisão - o Nganga masutu (Lisutu, pl. masutu - prepúcio).

Os rapazes colocavam-se em fila. Em volta do terreno capinado encontram-se os membros masculinos da família dos pequenos.

Só podiam assistir homens ou rapazes circuncidados.

Dos que vão ser circuncidados, cada um por sua vez, é deitado no chão de barriga para o ar. Um homem senta-se levemente no peito e dois mais seguram-lhe fortemente as pernas, um a cada uma.

Aliás, o rapaz fará por se mostrar forte e corajoso.

O Nganga masutu marca com a própria saliva o lugar por onde será cortado o prepúcio. Puxa-o duas vezes e, à terceira, corta, lançando fora e para longe a pele do prepúcio. Dá sinal para largarem o rapaz e logo vem em seguida um segundo, um terceiro, etc. ,etc. até findar.

Entre certas regiões dos Bauoio havia uma interessante particularidade na ocasião da operação: o corte teria de ser feito enquanto se atirava ao ar um grão de coconote, Enquanto subia e descia, o operador tinha de cortar o prepúcio. Se o coconote caía antes já não operava esse rapaz. Teria de esperar para o operar no dia seguinte.

Os rapazes, à medida que iam sendo operados, seguiam para junto de uma fogueira que o Nganga masutu mandara acender no começo da cerimónia. Se os rapazes forem muitos, haverá tantas fogueiras quantas forem necessárias.

Com tempo, foram feitas umas pequenas argolas de folhas de bananeira, das folhas verdes e tenras - nsoko itebe. Deixar-se-á em cada argola o orifício estritamente suficiente para passar o pênis do circuncidado permitindo ficar de fora a parte operada.

Essa argolita era segura por fios atados atrás das costas.

O Nganga masutu opera, ata a tal argolita e, então, o rapaz vai para junto da fogueira deitando-se de costas e abrindo, tanto quanto possível, as pernas e aproximando do fogo, ao máximo, a parte operada.

Cantava-se: Mbambi nkodo (e) ... Ku  nkodo (e) sutu é...
Bater da (cauda) do Mbambi - lagarto - bater do prepúcio (?)
E explicaram-me: com essa operação, por esse modo de cantar querem indicar ao operado que «está livre para avançar na vida».


Mbam - bi nko - dê,     ku - nko - de'   s u - tu      e' ....

Todas as manhãs a ferida era metida em pequenas cabaças com água simples para amolecer o sangue, sendo em seguida bem lavada. Embrulha-se uma tenra folha de bananeira, depois de a amolecer um pouco ao fogo, ata-se de novo a pequena argola e volta-se para a cura do fogo. Nos dias seguintes à operação o tratamento fica a cargo das pessoas de família, homens.

O tratamento anda à volta de água fria, calor da fogueira, folhas tenras e verdes de bananeira aquecidas - vuba va mbazu - cinza quente e seiva de Nsonha (Synadon dactylon), seiva da planta Mvuluka (Jatropha curcas, L.), cinza quente da raiz de palmeira, etc,

Quando a cura completa está próxima a família vai juntando galinhas, animais de caça, vinho, aguardente, etc. para o dia da festa.

No mato, cada dia após o banho, os rapazes são pintados com tukula, cobrem-se de missangas e adornam-se.

Quando a cura está terminada e a festa marcada voltam à aldeia. Tomam banho aparecendo completamente limpos e com novos panos.

Na aldeia, nesse dia do regresso, todo o dia e toda a noite se canta, dança, come e bebe.

No Ndinge e em algumas regiões de Kakongo havia, por vezes, umas pequenas diferenças no ritual.

Juntavam-se os garotos, dos oito aos doze anos, ou mesmo com a idade de umas duas semanas, depois da queda do cordão umbilical.

Não sendo circuncidados em pequenitos, logo após a queda do cordão umbilical, sê-lo-iam depois dos 8 e até aos 12 anos.

No dia marcado o operador (até já aconteceu ter sido uma mulher) começa logo de manhã a gritar: Mbele mbongo, Mbele mbongo (que é a faca da circuncisão mas que, traduzindo-se à letra, quereria dizer a «faca do dinheiro»).

Iam para trás de uma casa onde se juntavam todos os pequenos. Toda a gente podia ver, a não ser os que tivessem tido relações sexuais na noite anterior.

Uns enterravam o prepúcio, outros deitavam-no simplesmente fora e outros atiravam com ele para cima dos tectos...
Durante o tempo do tratamento, os garotos não podem comer refeições apimentadas.

Nos tempos que correm quase não existe festa da circuncisão, ainda que continue a haver (e sempre haverá) circuncidados.
Tudo se faz sem cerimónia e sem festa.
Entre os Bauoio e Bakongo os pequenos são circuncidados, na sua maioria, poucos dias depois do nascimento e alguns até no próprio dia em que nascem.
Interessante notar que o P. Merolla, já em 1680, dizia que os povos de Kakongo e Ngoio circuncidavam os filhos nos primeiros oito dias após o nascimento.
Os que não são circuncidados após o nascimento acabam por o ser entre os 8 e 12 anos.
Para isto chama-se um operador a casa. Raro se juntam vários pequenos. Tornou-se um acto particular.
Uma grande parte vai mesmo aos hospitais e sujeita-se ao tratamento indicado pelos médicos.
O Nganga masutu que vai a casa fazer a operação ainda usa marcar com saliva ou carvão o local por onde cortará o prepúcio.
Este, depois de cortado, ordinàriamente é atirado para cima do tecto da casa. Dizem que se os cães, gatos ou galinhas o comerem a ferida não curará.
As raparigas dos clãs que usam a circuncisão não aceitam rapazes dos que a não tem. É por isso que se não vê uma jovem de Cabinda, por exemplo, casar com um rapaz Basundi.

Infelizmente, em tantos anos passados em Cabinda, nunca nos foi possível assistir a uma circuncisão.
Mas o velho Estanislau Kimpolo não nos enganava ao contar-nos o que aí fica.


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CAPITULO XIV

NOIVADO - ALAMBAMENTO

O processo de arranjar esposa e as coisas que se dão para esse fim variam um pouco de clã para clã.
Contudo, em substância, dá o mesmo.
O rapaz encontra uma rapariga de quem gosta e com quem deseja casar? Notemos desde já que, neste gosto e escolha, reparam muitíssimo mais nas qualidades e dotes de trabalho da rapariga do que no aspecto e dotes físicos.

Tendo escolhido, em alguns clãs a primeira coisa que o rapaz faz é conseguir um amigo que leve à rapariga, de sua parte, qualquer prenda para uso pessoal, v. g. um lenço para a cabeça.

Se ela guarda a oferta mostra já que sente certa Inclinação e que aceita a «amizade». Mas esta só se tornará legal depois de a família concordar.

A concordância é dada em reunião de família. O rapaz oferecerá primeiro à «amiga» uma garrafa, por exemplo de vinho do Porto ou licoroso, donde ele primeiro bebeu. Se a rapariga também bebe indica que aceita. Por sua vez, ela levará aos pais e tios maternos essa mesma garrafa, donde já ela bebera e o «amigo», e, se todos beberem, automàticamente está dito que aceitam.

Nessa mesma reunião será dito ao rapaz o que terá de dar como «alambamento».

Outros têm processos mais longos.

Neste capítulo apresentaremos casos certos e dados certos de alambamento. Foram-nos cedidos pelos próprios interessados. Mas compreender-se-á que demos nomes fictícios, ainda que apresentemos os nomes exactos das aldeias a que pertenceram.

O E. Fuka, da aldeia do Fubu, procedeu do modo seguinte:

Encontrou a F. Landu, da mesma aldeia, de quem ficara a gostar e desejava para mulher.

Para cair nas suas boas graças deu logo uma garrafa de aguardente e outra de vinho licoroso (em 1943a aguardente a 40$00 e o licoroso a 25$00).

Três meses mais tarde deu-lhe coisas de comer e de vestir: uma peça de pano (80$00), um lenço para a cabeça (15$00) e, como comida, dendém e três corvinas (secas e salgadas).

Irá dando aos poucos ou tudo de uma vez, o que é raríssimo: 60 cobertores (1 /30$00); duas malas de peixe salgado (1/150$00); uma camisa e umas calças para o pai; prato, garfo e faca; uma bacia e um espelho; um casal de porcos,

Só depois disto houve o zibula munu - o abrir da boca, a aceitação definitiva.

Para este «abrir da boca» deu: 100$00 e duas garrafas de aguardente. A noiva bebeu de uma garrafa e deu a beber ao rapaz.

Deste modo a rapariga mostrou que aceitava casar com ele.

Levou ela para casa o dinheiro e o mais. Da garrafa donde bebeu ela e o noivo deu de beber aos pais e família. Eles beberam todos. Aceitaram, pois.

O casamento era para ser católico. O rapaz deu mais 10 litros (um garrafão) de vinho tinto e 10 litros de vinho de palma.

Foi dado o consentimento. Mas para poder levar a rapariga para casa, mesmo depois do casamento religioso, teve de dar mais o seguinte:

12 panos de meia peça cada um (6 peças, portanto, que, como vimos, na altura custavam 80$00 cada uma). Para cima de 2.500$00 (em 1943)!

Este é um modo de se conseguir esposa e de se dar o «alambamento».

Como primeiro dissemos, começa-se, ordinàriamente, pela pequena dádiva à rapariga seguida do zibula munu. No zibula munu em família se indica o «alambamento» que o rapaz terá que dar.

Convém notar que, se não chegar a haver casamento, tanto a rapariga como a família terão de devolver - integralmente - o que receberam.

É por isso que os rapazes tomam nota de todas as coisas, mesmo as mais pequenas, sem nada esquecerem para, no caso de desavença, receberem tudo quanto deram.

Foi assim que Mantandu, do Kay Kongo, desfazendo o noivado com a Zefa Landu, que se havia portado mal e o rapaz já não a quiz, pôde apresentar a lista de tudo quanto dera e os respectivos preços. E em grande «fundação» (processo judicial indígena) tanto a rapariga como a família foram obrigados a devolver o que fazia parte da lista que seque:

3 litros de aguardente ....................................1/ 50$00 150$00
3 litros de vinho licoroso ............................... 1/ 25$00   75$00
 Em numerário   ......................................................... 100$00
6 cortes de fazenda ........................................1/122$50 735$00
3 lenços de cabeça .........................................1/ 25$00    75$00
2 saias bordadas  .........................................1/ 20$00 40$00
   Em numerário .................................................................300$00
1 colher ................................................................................5$00
1 faca  ..................................................................................5$00
1 garfo   ..............................................................5$00
1 caneca de esmalte ...........................................................15$00
3 litros de vinho tinto ..........................................1/10$00    30$00
1 espelho  .........................................................................15$00
1 frasco de água de Colónia ..............................................15$00
1 bacia .................................................................................30$00
1 pato ...................................................................................50$00
1 galo ...................................................................................25$00
1 galinha ..............................................................................15$00
1 litro de aguardente ...........................................................50$00
3 pães e um quilo de arroz  ...................................................6$00
1 quilo de feijão ......................................................................6$00
1 quilo de açúcar.....................................................................6$00
1 quilo de café ........................................................................6$00
1 saia ...................................................................................25$00
3 latas de sardinha de conserva .......................1/10$00    30$00
1 cobertor .............................................................................30$00
cigarros ...................................................................................5$00
em sabão ...............................................................................60$00
+ uma faca ...............................................................................7$00
2 bagres (peixe do rio) ..........................................................14$00
4 quilos de peixe seco .........................................1/ 24$00    96$00
+ em numerário .....................................................................145$00

Tudo isto somado dá, se não nos enganamos, dois mil cento e setenta e um escudos - 2.171$00.

Tudo havia sido apontado. Tudo a família da rapariga apontara também. Nada havia a mais nem a menos. Tudo foi devolvido.

Ser-se-á levado a perguntar se isto de «alambamento» é compra, empréstimo ou dádiva para noivado.

Nem é compra, nem dádiva, nem empréstimo.
O que é, pois, o alambamento?

Artur Bivar, no seu Dicionário Geral e Analógico, define o «alambamento» como sendo: «Casamento entre pretos na África Ocidental. Festa por ocasião desse casamento».

Nada disto é o «alambamento».

Outros lhe chamam «dote». Nunca o alambamento teve verdadeiramente o sentido que os europeus dão a dote.

Alambamento, afirmam outros, são os valores - dinheiro, fazendas e géneros - com que um noivo adquire uma noiva. Esta afirmação é a que se aproxima mais da verdade, se se afastar a ideia de compra.

Kunz Dittmer, no seu livro Etnologia General (Versão espanhola), ao tratar deste assunto diz, e muito bem, mais ou menos o seguinte:
(Kunz Dittmer, «Etnologia General», México-Buenos Aires, 1960, pág. 85.)

«Ao casar-se uma rapariga, a família perde, por assim dizer, um poder e valor económico. Para reparar esta perda o noivo tem que oferecer uma indemnização.

Mas não há que confundir, diz Kunz Dittmer, a compra da noiva com a compra de qualquer mercadoria. Expressam o valor da noiva e previnem um mau tratamento ou um divórcio leviano pois só quando se prova que a mulher é culpada se devolve o «preço» (e Kunz coloca preço entre aspas... ) da noiva ao realizar-se a separação, o divórcio.

O «preço» recebido não significa quase nunca um enriquecimento. A quantidade paga passa muitas vezes de uma família a outra e se considera modo de conservar relações amistosas entre os clãs ... »

O certo é que as coisas que se não detioram chegam a ficar guardadas anos seguidos.

Não haja dúvida de que o «alambamento» - e diríamos que quanto mais pesado fosse melhor - é uma verdadeira salvaguarda do casamento.

Pelo alambamento se previnem maus tratos, separações e até infidelidades. A família da noiva, por causa do alambamento recebido, fica a ser responsável pela fidelidade da mulher ao seu marido.

E dando-se casos de infidelidade, como veremos noutro ponto, a família da mulher chega a ter multa mais pesada a pagar ao marido do que os próprios cúmplices.

Por outro lado, quanto, mais pesado for o alambamento mais difícil se torna a poligamia.

A mentalidade criada de que o alambamento é uma «compra» tem levado muitos a lutar contra ele. Mas os resultados positivos têm sido poucos (e só interessariam aos polígamos) e mais se notam os inconvenientes.

Pelo alambamento, mais ou menos pesado, o rapaz pode e quer mostrar o interesse (o amor?) que tem pela sua futura esposa, pelos seus dotes de trabalho e pela 'esperança que nela deposita para vir a ser mãe fecunda. A rapariga, por seu lado, chegará a envaidecer-se ao notar o «valor» que lhe atribuem, ao reconhecerem nela mulher de trabalho, qualidades de boa esposa e de mãe.

A convicção, tão arreigada entre eles, de que o que é dado ou cedido gratuitamente ou por pouco preço não tem grande valor ou préstimo, também, mutatis mutandis, se pode aplicar aqui.

Mas não se dê ao alambamento sentido de compra ou venda.

De modo algum. Para eles é um insulto pensar dessa forma quanto mais o exprimi-lo.

A rapariga, na verdade, é um bem, um valor que pertence ao clã.

E ela vai, ordinàriamente, para o rapaz que a quer e que ela aceita e que é aceite pelo clã Mesmo que fosse para quem a família escolhesse não iria, só por isso, contrariada. Antes de mais, ela quer e aceita, salvas mui poucas excepções e não só resignadamente, quem a família, o clã, escolhe. A sua vontade só contará, isto por princípio, desde que não vá contra a da família, do clã.

Ainda não há muito, em Dezembro de 1970, fazia estranhar a uma rapariga, mãe dum lindíssimo pequeno mestiço, a facilidade com que se entregavam. Ela respondeu-me textualmente:

«Eu não tenho pecado. Este filho foi Deus quem mo deu, pois foi a vontade de meus pais e família que me entregou a esse homem. Por isso, eu não tenho culpa.»

E não se tinha entregado, digamos o termo, contrariada. Não.

Havia aceitado a vontade da família. E a família não a vendeu (ainda que quem a tomou possa ter ficado com a impressão de que fez uma compra) no sentido rigoroso do termo.

Recebeu para o clã uma compensação, uma espécie de fiança.

A família vigiará para que ela seja fiel ao marido, doutra sorte terá de pagar multas. 0 marido terá que a tratar bem. ou arriscar-se-á a ficar sem ela e sem todo ou parte do alambamento.

Nos bens entregues pelo noivo, em ordem ao casamento, tem que se fazer diferença entre o chamado Mbongo zimakuela e o Mbongo zinkiento - o dinheiro do casamento e o dinheiro da mulher.

O Mbongo zimakuela é que forma, na verdade, o dinheiro, os bens do casamento que, no caso de divórcio ou de morte, é devolvido, no todo ou em parte, conforme os anos de casados, o número de filhos, etc., etc.

O Mbongo nkiento é o que o noivo dá, a título pessoal, à noiva e que esta usa e gasta. Só será devolvido não se tendo realizado o casamento, conforme já vimos num exemplo atrás.

O Mbongo zimakuela é que conta. Podemos até afirmar que o casamento só se torna válido de verdade no momento em que todas as coisas do Mbongo, zimakuela foram entregues.

Morrendo o marido, a família deste pode receber, conforme, todo ou parte do Mbongo, zimakuela ou até um irmão do falecido receberá a viúva.

Morrendo a mulher, segundo os anos de casada, o número de filhos, etc., etc., se devolverá, mais ou menos, os bens do Mbongo zimakuela ou se entregará uma irmã desta para casar com o viúvo.

Um caso:

Na aldeia de Santo Eugénio, da Missão do Lukula, Filipe Madungo ficou viúvo de Eugénia Mpaka. O Madungo queria que a família da mulher lhe devolvesse o Mbongo zimakuela ou uma pessoa de família.

Estavam casados há muito. A família, que já não tinha as coisas do Mbongo zimakuela estaria resolvida mais ou menos, a ceder-lhe uma irmã da Eugénia, a Marta. Mas esta não quer e argumenta que ele já não tem esse direito. Por outro lado, admitindo que viveram casados muito tempo, que tiveram filhos do casamento e até que ele havia guardado um dos filhos, preferem levar o assunto para o tribunal indígena. E a sentença do tribunal não lhe deu direito a receber a cunhada mas somente uma parte, e pequena, do Mbongo zimakuela.

No Ndinge, conforme estudo do P. J. Vissers, destinguem-se ainda mais duas partes no alambamento: O Ntumunu kikumbi e o Nlandulu kikumbi.

1 - Ntumunu kikumbi (ntumunu vem de Kutuma - mandar). Consiste em bebidas e, sobretudo, panos. Depois de a família ter recebido o que está marcado como Ntumunu Kikumbi, terá de mandar a rapariga para a NZO KUALAMA.

2 - Nlandulu Kikumbi (Nlandulu vem de Kulanda - buscar). Consiste numa catana, uma bacia, dois litros de vinho licoroso, mais ou menos 50$00 em dinheiro, etc., etc.

É para que busquem, para que vão buscar a rapariga à NZO KUALAMA, a lavem e levem para casa do marido.
(João Vissers, C. S. Sp., «Alambamento e Amor Conjugal», separata de «Portugal em África», 2.o série, n.os 1231124, Lisboa, 1960, págs. 9/10.)

Três 'fases se distinguem 'ainda hoje entre os Cabindas:

1 - Mbongo zamikina, o dinheiro de «amigar», quando se pede licença à família para namorar.

2 - Mbongo zikunzikila kimigo (chimigo) -o dinheiro para' que se dê a conhecer publicamente que a rapariga já tem pretendente e, portanto, para que ninguém mais venha a ter pretensões sobre ela.

Para se perder toda a ideia de negócio e venda, note-se que não haverá oferta a quem mais der...
Sendo anunciado que tem pretendente, acabou-se.

3 - Mbongo zimakuela - o dinheiro do casamento, para que possa tomar a rapariga e levá-la para sua casa,

Mbongo zamikina

Para pedir licença à família, o rapaz já falou com a rapariga, vai uma pessoa da confiança daquele, que pode ser homem ou mulher.

A família já está, mais ou menos, a par do caso.

Antes de dizer ao que vai, o embaixador coloca uns 5$00 debaixo de um lenço no meio da roda das pessoas do clã da rapariga. É exposta a pretensão. Ouvida ela, os da família da rapariga levantam os 5$00 e vão, em segredo, resolver o assunto: se sim ou não aceitam o rapaz e, em caso afirmativo, marcar o dia em que todos - família da rapariga e do rapaz se reunirão e resolverão o quantitativo do alambamento total, isto é, o Mbongo zikunzikila kimigo e o Mbongo zimakuela.

Para o Mbongo zamikina já o embaixador leva a nota.

Neste caso do nosso Xico Malavu, mesmo dos arredores, da periferia de Cabinda e que nos contou tudo quanto tem de dar, como Mbongo zamikina foi-lhe estipulado o seguinte:

1 litro de aguardente ..................................................45$00
5 litros de vinho tinto (garrafão fechado) ..................90$00
Em numerário ..........................................................100$00
1 pacote de fósforos ....................................................5$00
1 maço de cigarros Simba ..........................................7$00
1 maço de cigarros Albert ...........................................7$00
Valor total  .........................................................254$00

Volte a notar-se o cuidado com que se apontam todas as verbas,

O cigarro Simba e Albert é tabaco da República do Zaire. É imposto que seja desse tabaco. Porquê? Nem o Xico Malavu me soube dizer. É esse que exigem e não dão razões.

Como o nosso homem foi aceite, o Mbongo zikunzikila kimigo é o seguinte;

6 litros de aguardente ....................................1/ 45$00        270$00
2 garrafões de 10 litros de vinho tinto ..........1/160$00         320$00
1 litro de vinho licoroso .........................................................30$00
2 peças de pano ............................................1/175$00        350$00
2 saias de dormir (?) .......................................1/ 30$00         60$00
1 fato para o pai, que fica em + ou ........................................750$00
1 par de sapatos para o pai ..................................................200$00
1 lenço para a mãe, lenço da cabeça .....................................25$00
1 lenço para a noiva ................................................................25$00
Em numerário ........................................................................500$00
Total .....................................................................................2.530$00

Mbongo zimakuela

12 litros de aguardente .......................................1/ 45$00    540$00
4 garrafões de 10 litros, v. tinto ..........................1/160$00    640$00
1 litro de vinho licoroso ............................................................30$00
Em numerário ......................................................................1.000$00
Total .....................................................................................2.210$00

Este Mbongo zimakuela é dado na altura de receber a rapariga, na altura do casamento.

O total, portanto, do alambamento a ser entregue pelo Xico Malavu, somadas as três partes, é de 4.994$00.

As coisas, bebidas, etc., etc., são divididas de comum acordo pelos tios e tias maternas. Regra geral não há mau entendimento no caso. A divisão é feita em partes iguais: um maço a este, um maço àquele; tantos litros a um e igual número a outro; tanto dinheiro a este e igual quantia àquele, etc., etc.

Pode acontecer que a rapariga não vá virgem para o casamento. Nunca vi pedir-se, por isso, a anulação do casamento. Pede, sim, o noivo, a devolução de metade do alambamento. A família não perderá nada.

A rapariga confessará quem foi o violador e este irá ser condenado a pagar a metade devolvida. Além disso, o marido também pedirá forte indemnização.

Conhecer e entrar na mentalidade desta gente será possível?

Mais um caso:

Uma parturiente muito aflita é levada, a toda a pressa, para o hospital na carrinha de um nosso bom compatriota.

A mãe dá à luz ainda no carro, uma Fiat 1.500.

Tornara-se, na mente deles, como que também filha daquele branco.

Havia sido uma pequenita que nascera.

Havia chegado, em 1970, à idade de já poder casar.

Os pais, levados não sei por que princípios, vão oferecê-la ao senhor que, há anos, levava a mãe para o hospital a fim de dar à luz.

Se ele mesmo a tem como filha, não a pode receber por mulher.

Mas vivem perto do Malongo, da área da extracção de petróleo. E lá há homens ricos. E aparece um que deseja a pequena.

E, novamente por razões que se nos escapam, os pais aceitam ceder a filha ao rico estrangeiro.

O pai «putativo» - dono do carro em que a pequena nascera - diz-lhes o que devem pedir como alambamento.

E na tarde do dia 23 de Dezembro de 1970 é pedido ao estrangeiro o seguinte:

2 barris de vinho tinto ...............................................1/1.100$00     2.200$00
10 litros de bagaceira branca ........................................1/60$00    600$00
2 garrafões de 10 litros de v. tinto, capacete ..............1/180$00     360$00
Em numerário ...............................................................................2.500$00
3 peças de «pintado»................................................. 1/150$00      450$00
1 garrafa de Carlos III  .....................................................................150$00
5 garrafas de cinzano ....................................................1/55$00     275$00
Em várias bebidas e beberetes .......................................................400$00
Valor total ......................................................................................6.935$00

A rapariga já não estava virgem (daqui se pode depreender a pressa em a casar). No dia 27 de Dezembro, quatro dias depois, há reunião por causa da falta de virgindade.

A família devolve:

1 barril de vinho,
5 litros de bagaceira,
1.000$00 em dinheiro.

O que a havia violado - a rapariga confessou quem foi - teve de entrar com o desconto que agora havia sido feito ao estrangeiro. E este, para ficar a saber quem havia sido
o «violador», entrou com 2 garrafões de vinho tinto!

Finalizamos este capítulo com o que acertadamente escreve o P. João Vissers sobre
o alambamento.

«  O Alambamento:

1. - É a prova de que o noivo aprecia a noiva! Deve «  ganhar » a noiva pelo trabalho árduo de alguns anos.

2. - É o reconhecimento dos cuidados que o clã teve com a educação da rapariga.

3. - É uma indemnização ao clã porque «  perde os braços » da rapariga, e é assim também um reconhecimento da laboriosidade dela.

4. - É a garantia de que o casamento durará e de que ela será bem tratada. Pois, se houver divórcio por o marido a tratar mal, não se deveria restituir nada ou somente pouco do alambamento ».

CAPITULO XV
 
 

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