Bispo de Cabinda Diz Que "Portugal Errou"

Domingo, 8 de Abril de 2001
Entrevista com D. Paulino Madeca

O bispo de Cabinda afirma não haver outro caminho para o território que não seja o diálogo entre os independentistas e o Estado angolano. Defende também um diálogo entre a guerrilha e Lisboa. E considera que a actual situação militar pode estar a causar mais baixas do que as que se conhece. Por Jorge Heitor
D. Paulino Fernandes Madeca, nascido há 73 anos em Cabinda, onde é desde 1983 o primeiro bispo (anteriormente só lá havia vigários episcopais, dependentes do arcebispo de Luanda), declarou este fim-de-semana ao PÚBLICO, em contacto telefónico, que a situação se está a complicar no interior do território e que não há outro caminho para a resolver que não seja o diálogo.

PÚBLICO - Como é que caracteriza a actual situação em Cabinda?
D. PAULINO MADECA - No campo sóciopolítico, temos a expulsão dos jornalistas portugueses, a morte de elementos da segurança da guerrilha e uma grande actividade nas matas.

P. - De há um ano a esta parte, a situação é igual ou pior?
R. - As coisas complicaram-se bastante no interior. Agravaram-se em especial na floresta do Maiombe.
P. - Qual considera que seja a saída?
R. - Não há outro caminho que não seja o diálogo. Possivelmente, terá de haver um diálogo entre a guerrilha e o Estado angolano. Quanto às exigências para a libertação dos reféns, terá de haver também diálogo com as autoridades portuguesas. Portugal errou, ao passar por cima do Tratado de Simulambuco [de 1885].
P. - Quando é que julga que os independentistas poderão dialogar com Luanda?
R. - Acho que há uma certa vontade de diálogo, mesmo da parte do governo angolano. Espero que haja sucesso. Talvez a guerrilha diminua de intensidade, para que daqui a alguns meses possa haver negociações.
P. - Confirma que se estejam a travar fortes combates?
R. - Não posso afirmá-lo. Vivo aqui na cidade. Mas o que me dizem é que há no interior uma grande actividade dos militares angolanos para acabar com a guerrilha.
P. - Com elevado número de baixas?
R. - Pode haver mais baixas do que aquelas que se sabe.
P. - Crê que a maioria dos cidadãos residentes na sua diocese é a favor da independência?
R. - Já mais do que uma vez o afirmei. Na cidade menos; mas no interior é mais radical o desejo independentista.
P. - Quantos são os cabindas?
R. - Ao todo, perto de meio milhão. Mais de 300 mil a residir localmente e 100 a 200 mil no exterior, nomeadamente nos dois Congos.
P. - Tem constado que a Santa Sé não vê com bom grado o facto de uma grande parte dos 34 sacerdotes de Cabinda demonstrar uma certa simpatia pela causa independentista.
R. - É pura mentira [que o Vaticano não esteja satisfeito]. A Igreja cabinda está pelo povo sofredor. Somos a voz daqueles que não têm voz.
P. - Também houve controvérsia sobre se a diocese poderia ser ou não medianeira no caso dos reféns.
R. - Quando os três [reféns] primeiros foram raptados, apareceu-me aqui um director da Mota e Companhia, para que um sacerdote fosse junto de um chefe de Estado africano e depois se dirigisse à guerrilha. Mas não se podia aceitar isso. Já se libertaram noutras ocasiões alguns portugueses graças a intervenções do género; mas hoje nas matas não o toleram. Nós não estamos contra os portugueses; só não aceitámos a mediação para não colocar em perigo um dos nossos padres. Hoje já não há corredores com a guerrilha.
P. - Os padres naturais de Cabinda têm marcado inclusive posição na generalidade do episcopado angolano...
R. - Três deles são actualmente bispos eméritos [por haverem ultrapassado o limite de idade e passado à reforma]. E é agora cabinda o novo arcebispo de Luanda, D. Damião Franklin.

in PúBLICO


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