CABINDA 1885

AO LEITOR

Vivi quase nove annos na nova Cidade de Cabinda, como delegado de saúde, e, por curiosidade, fui colhendo apontamentos d'assumptos variados referentes á gente com que lidava. Os deveres do cargo obrigavam-me a permanecer ahi, a não me afastar ; a maior parte do tempo medico único bastantes kilometros em volta, não podia fazer excursões, estudar logares distantes. Os meus deveres oficiais a profissionais absorviam-me quase todo o tempo e, mais como distracção do que como estudo, colhi os apontamentos que hoje apresento coordenados.

São poucos a não dos melhores, de certo, mas são o que pude obter a verificar, são um pequeno contingente de materiais para quem vier depois a tratar desenvolvidamente do assunto.

Pouco me ajudei de trabalhos anteriores ; indaguei, procurei certificar-me, o melhor que me foi possível, de certos factos, de certos usos, a principalmente do que se refere á linguagem falada for tais gentes, da qual os trabalhos anteriores que conheço, e a que me referirei, dizem verdadeiras barbaridades. Procurei fixar datas de pequenos factos que podem vir a ter valor, enumerei noções leves que a outros mais generalizadores passariam em claro, historiei acontecimentos modernos que correm já deturpados a não por aqueles com quem, como eu, eles se passaram ; não critiquei bastantes factos nem pessoas, acumulei a condensei cabedal para obra boa, deixando-me ficar no limite do medíocre, que não me sinto capaz de me abalançar, a mais ; preferi rastejar firme, a cair por causa de cabriolas, para que me falta a destreza.

Neste meu navegar terra a terra por tão extenso assunto, procurei apenas ser exacto ; deixo por vezes um ponto incompleto para não me atrever a coisa de que não me convencesse, quem conservar o mérito de não ir alem do que as minhas forças permitem. Outros virão depois que, vendo o que houver feito a estudando o muito que fica por fazer, farão mais a melhor; sucessivos aperfeiçoamentos darão então obra boa.

Cabinda é termo comum a varias coisas de que não tratei e de que tratei nestes apontamentos. Não me refiro ao logar de Cabinda no distrito de Tete na nossa África Oriental ; desconheço a povoação de Cabinda na província d'Angola fazendo parte do distrito de Loanda, no caminho do Ambriz para o Bembe.

Quando pelo desmembramento do enorme e antigo Reino do Congo se formaram vários Reinos, um houve, o de Cabinda, que os chronistas dizem ter abrangido os territórios de Cacongo, Molembo, Cabinda, e Benda, a alguns metem ainda nesta divisão o actual Loango, dando a toda esta extensão até á margem direita (norte) do Zaire o nome de costa do Loango. A linguagem falada justifica ainda hoje esta aproximação; mas os dialectos vão sucessivamente subdividindo-se a diferenciando-se a ponto de não se entenderem já bem os habitantes dos pontos extremos. Trato mais especialmente duma divisão desse Reino, que não chega já do Zaire em cuja margem habitam os muchicongos, parentes próximos, mas diferenciados, dos Cabindas propriamente ditos.

Refiro-me quase só aos povos da moderna circumscripçao administrativa de Cabinda, embora os seus costumes a linguagem se aproximem a confundam por vezes com os dos habitantes de terrenos hoje franceses ou belgas .
A tribo dos Cabindas não ficou toda compreendida em território português sendo a sua parte leste a um pouco da do sul sujeitas ao Estado Independente do Congo (vulgarmente Congo belga), conforme o estipulado pela convenção de 14 de fevereiro de 1885 com a Associação Internacional do Congo, antecessora daquele Estado.

Escolhi antes as imediações da bahia de Cabinda onde ha a nova povoação portuguesa do mesmo nome por 5°31'32" de latitude sul a 12'10'45' de longitude E de Greenwich. Não posso porém isolar este estudo totalmente da tribo Cabinda que habita quase desde a margem norte do Zaire até Ponta Negra ou Loango, segundo geógrafos modernos, abrangendo pelo interior até ao território de Muropoé, conforme o dicionário Larousse. Este diz nos que a villa de Cabinda dista 60 kilometros de Banana para o norte a está do kilometros ao sul da fronteira francesa do Congo ; que o Paiz de Cabinda (E' use chamar assim ao terreno, ao norte do Zaire, pertencente a portugal cujos limites são definidos pela convenção com a Franca de 12 de maio de 1886 e pela com o Estado  Independente de 25 de maio de 1891) tem 70 kilometros de norte a sul, 50 de leste a oeste, 3:900 kilometros quadrados de superfície a 50 mil habitantes.

Quanto á população apenas se pode dizer que este calculo não estará muito longe da verdade; quanto ao resto o leitor podera avaliar por si, consultando « mapa que publico feito pelos Srs. João Francisco Nunes, comissário português nas limitações do Congo com os representantes da Franca e do Estado Independente, e pelo seu companheiro Pottier de Lima.

 Cabinda é essa formosa bahia limitada ao norte pela ponta de Cascais e ao sul pela ponta do palmar ou das palmas, designações cahidas em desuso e hoje substituídas por ponta do sudoeste ou do a segunda e de Chinkáto ou de Molembo a primeira (1) ; é a bahia dos almadias dos mapas de Diogo Homem e de Pigafatta. Por Cabinda se designava a povoação indígena de Porto Rico existente nos terrenos onde hoje assenta a moderna vila.

Este meu trabalho tem, de certo, lacunas que não me é possível preencher porque não estou no logar onde a observação as, poderia completar; terá provavelmente erros a que não me foi dado furtar-me; mas não sei fazer melhor, e como os que sabem não vão lá estudar o assunto na origem, o estudo comparativo, no gabinete, dos trabalhos publicados fará descobrir a verdade. E' apenas para contribuir como posso para esse desideratum que apresento este modesto produto do meu labor.

Junho de 1900.

(1) E' difícil o limite pelo norte do que seja bahia de Cabinda ; a costa corre quase sem recortes, formando apenas primeiro a ponta de Molembo e depois a de Landana, como as designam os europeus. Indígenas dos principais e dos mais velhos, afirmaram-me considerar-se bahia de Cabinda toda a extensão até esta segunda ponta que chamam Kumungo-nhembo, sendo a primeira, Kumungo-chin-káto ; ao Paiz entre as duas pontas chamam Nekóche, e aos habitantes bakôche, enquanto que ao território Cabinda chamam N'Goyo e aos habitantes bafiote.

 PRIMEIRA PARTE

I

Historia

 Em 1482 ( "Embora geralmente se refira o facto a 1484, parece averiguada como melhor a data que escolhi. (Luciano Cordeiro, Descobertas e descobridores, Diogo Cão") aportava Diogo Cão à margem esquerda da entrada de um grande rio
( "Colocado um padrão na ponta que forma a foz pelo sul, deu-se por bastante tempo ao curso d'água o nome de rio do Padrão, nome perdido ha longos anos. A respeito desse padrão vide Boletim da Soc. de Geografia de Lisboa, 1892."); era na Bahia  do Sonho (1) hoje também denominada de Santo António do Zaire. Este nome do rio é a corrupção portuguesa dalguma das palavras que, nos dialectos da região, querem dizer rio, N'Zari , N'Záli, N'Zadi, etc., conforme

quem os pronuncia e quem os ouve e escreve. Fora de Portugal esse grande curso de agua é quase exclusivamente conhecido por Congo, termo hoje geralmente adoptado, e até por nós quando não nos referimos particularmente ao rio; realmente este, os terrenos para norte e sul e enormes  extensões para o interior, formavam o hoje em decadência e reduzido Reino, do Congo.

Foi esta a primeira visita aos territórios que actualmente constituem o Congo Portugues de que é capital Cabinda (2), povoação situada na costa, numa Bahia ao norte da foz do Zaire 40 milhas. Não consta, porém, que os portugueses nessa ocasião tivessem visitado tal Bahia que fazia parte do território de N'Goyo, N'Goio, Negôio ou Angoio (3), uma das divisões, ou melhor Condados a moda da Edade Media (4), sujeitos ao potentado Mani-Congo (5) como os antigos escreveram.

Segundo a tradição local, ha muitíssimo tempo, em época quase fabulosa, o País foi ocupado por muita gente vindos do interior, duma distancia de meses de viagem, da direcção que indicam mais ou menos ao rumo de E.N.E.. Fica assim ligada a origem dos indígenas actuais à invasão conhecida pela da família bantu (6) ; veremos que costumes e palavras nos levam à mesma conclusão. Com o andar dos tempos e em virtude de antigas, remotíssimas até, lutas fratricidas, foram-se fragmentando e isolando grupos, um dos quaes, o de N'Goyo, povoa um diminuto território, não limitavel dos vizinhos, usando dum dialecto que pouco difere também do dos povoados próximos, terrenos e dialectos que se confundem por graus insensíveis, só dando diferenças notáveis a distancias também notáveis, mostrando assim a mesma origem e os muitos anos que produziram as pequenas diferenciações. E' assim que entre a linguagem de Cabinda e Landana (duas povoações do, Congo português afastadas vinte milhas proximamente), não, ha maiores diferenças do que entre as de Lisboa e do Barreiro, por exemplo; são simples diferenças de pronunciação, d'illustração, de toada se quiserem.

E' ainda tradição local (e era muito mais viva em 1883 quando pela primeira vez fui a Cabinda então ainda totalmente entregue a si, havendo como representantes da raça branca apenas alguns negociantes), que os povos do Zaire são antropophagos e que roubavam, matavam e comiam todos os Cabindas que se aventuravam á navegação naquele rio. Se, por um lado, as delapidações dos muchicongo ("Por este termo designam os habitantes das margens do Zaire próximo da foz (não de todo o curso inferior nem das povoações afastadas das margens) embora pertencentes ao antigo reino do Congo; o indígena do antigo reino é ,designado por Kongo, no plural Ba-Kongo." )  (ba-kongo (7) do delta do Zaire) são tão modernas que facilmente explicam o terror e a aversão que inspiravam, ha dez ou quinze anos, nos Cabindas, por outro não foi pessoa alguma capaz de me precisar caso ou época de canibalismo sucedido no Congo, e desmentiram sempre categoricamente, mesmo os velhos, que houvesse exemplo de tal em terras de Negoio (N'Gôio).

 Daqui talvez se possa concluir que a invasão dos lacas, ou Jagas, que teve lugar em grande parte do Reino do Congo, não chegou até Cabinda. Mas visto que ela se deu (1558) já depois das relações dos portugueses com o império Congoense, poderá supor-se que esses canibais não tivessem chegado a Cabinda por esta ser na costa do Atlântico e portanto mais facilmente vigiada pelos navios portugueses. Como, porém, a tradição mostra que na costa mais ao norte, era praticado o antropophagismo, é licito supor que Negôio escapou à incursão dos lacas por estar próximo da foz do Zaire, por onde eles desceram mas inclinando-se pelo interior para oeste até à costa do norte.

Daqui e de casos semelhantes veio, me parece, o carácter aventureiro no mar, medroso na terra, submisso, dócil do indígena da região de Negôio, salientando-se tanto da altivez, valentia e decisão de povos relativamente pouco distantes, oriundos da mesma origem, seus parentes muito próximos.

Diogo Cão trouxe para Lisboa vários indígenas do Congo que foram catechisados e baptizados, aprendendo também bastantes luzes de Portugal e sua língua. Então foram estes indígenas carregados de presentes e repatriados numa esquadra de três navios que saiu de Lisboa a 19 de dezembro de 1490 comandada por Gonçalo de Souza. Próximo das ilhas de Cabo Verde foram as tripulações dizimadas pela peste, morrendo entre outros o capitão, o que determinou uma arribada à ilha de S. Thiago; aí a eleição   substituiu o comandante por seu sobrinho, segundo uns, ou primo, segundo outros, Ruy de Souza que ia de passageiro na armada, a qual aportou à bahia do Sonho em 29 de março de 1491. Julgo que foi um destes navios, a Nossa Senhora da Atalaya, o primeiro que visitou Cabinda. Destes factos derivaram os nomes para três ruas da actual povoação, o do navio, o do capitão e o do rei D. João II.

Durante muitos anos as rebeliões e guerras civis, as questões de descendência e outras que assolaram o Reino do Congo, as grandes distancias à capital, etc., foram pouco a pouco diminuindo a cohesão entre os vários elementos que o formavam ; os governadores das suas províncias quase não sentindo o jugo real tendo  eles próprios veleidades de reinar, foram gradualmente emancipando-se da autoridade superior e criaram assim Reinos com o fragmentar do Reino do Congo. Cada um destes novos Reinos por sua vez se fragmentou em outros e, de divisões em divisões, o Reino de N'Goyo aparece de reduzidas dimensões e há anos sem Rei  (8).

Na bahia de Cabinda, estabeleceram os portuguezes uma feitoria (Ficava proximamente ente no sítio designado por Porto Rico) protegida por um pequeno forte ; mas o negocio foi atraindo mercadores estrangeiros, especialmente franceses que nos foram guerreando, tentando até repelir-nos (Ajudados por marinhagem de navios de guerra da sua nação), pelo que em 1783 se tratou de construir uma fortaleza (o forte de Santa Maria de Cabinda) que, não estando ainda acabada em consequência das doenças e mortes que muito dizimaram a guarnição, foi atacada 1784) por uma força naval de três navios franceses, sob o comando do capitão de mar e guerra de Marigny, que a tomou por capitulação, mandando desmantelala.

Não foi arrasada, como se supoz e corre em livros antigos porque, quando, em novembro de 1893, se quis fazer uma estrada para os carros melhor conduzirem material entre o ponto de desembarque e a actual fabrica e deposito de materiais de construção, ainda se encontraram muralhas bem conservadas, restos do fosso, corredores e três canhoneiras para o lado do mar, tudo soterrado. Debaixo duma abobada encontrou-se um bloco que mostrava ter sido boa cal virgem que, com o tempo, lentamente se apagara e destruíra umas dezenas d'espingardas ali depositadas ou talvez escondidas, de cujos canos ficaram os moldes formando como que um grande favo.

Também se encontraram bastantes ossadas de indivíduos da raça caucásica, masculinos, quase todos adultos, não só dentro do forte, como em maior numero, fora do fosso, do lado do sul. Devo ainda fazer notar, a favor da hypothese de a fortaleza não ter sido demolida e arrasada pelos franceses, que a feitoria inglesa de Hatton & Cookson de Liverpool que, havia anos, se estabelecera na pequena elevação próxima e continuação da do forte, empregara bastante pedra e milhares de grossos tijolos que tirara das ruirias que em parte aterrara com os detritos para estabelecer um mirante onde cravara o pau da bandeira. Pois apesar de todos os vandalismo praticados para esta apropriação de materiais, ainda, nas posteriores escavações a que me referi, encontrámos obras em bom estado.

 Expulsos os portuguezes, também a breve trecho desapareceram dali os franceses ficando os indígenas entregues a si, mas não tendo Portugal desistido dos seus direitos de descobridor e primeiro ocupante (Este negocio foi regulado com a Franca pela convenção de 3o de Janeiro de 1786, servindo de mediadora a Espanha). As coisas correram assim à revelia muitos anos, tendo sido a bahia teatro d'embarques de milhares d'escravos, sendo uma dessas remessas voluntariamente acompanhada, por Chico Franque e Manuel José Puna, filhos dos dois maiores potentados da localidade, que se destinavam ao Rio de Janeiro para serem educados pelos portuguezes.

O capitão negreiro, faltando ao seu compromisso com os paes, entendeu melhor vender os filhos como escravos, conseguindo eles depois libertar-se com o dinheiro que o primeiro em si levara escondido e com o auxilio de influencias e autoridades portuguesas do Brasil. Tendo aprendido excelentemente a falar, proceder, escrever e trajar à portuguesa, os dois mancebos conseguiram voltar à sua pátria pouco, depois de declarada a independência do Brasil, e tornaram-se os personagens mais importantes da localidade.

Tudo isto me contou, com os olhos cheios de lagrimas, o bom velho Puna, feito, Barão de Cabinda e Coronel honorário de infantaria quando esteve em Lisboa, onde foi, diz, tão obsequiado e bem tratado pelo falecido Rei D. Luiz que para sempre ficou seu amigo. Este excelente velho é muito dedicado aos portuguezes e muito reconhecido, a todos com quem tem vivido; é um homem honrado, de bons costumes, muito bem educado e civilizado, mas, com a idade, vai decaindo nos antigos usos e crenças gentílicas.

Puna foi sempre muito grato ao falecido Franque por o ter livrado da escravidão, e por isso lhe suportou muitos factos dignos de censura, quase sempre acarretados por questões de família e ciúmes de preponderância. Francisco Franque afeiçoou-se um tanto aos ingleses, e mais ainda os seus parentes próximos, um dos quais recebeu deles o nome de King Jack e outro o de King Franque e foram contra nós em 1885 quando os outros quiseram o nosso Protectorado; foram levados a isso por um ambicioso, Luemba Franque, que era induzido a tal por certos estrangeiros; este Luemba não é o que assinou o tratado, fugiu da localidade quando viu perdidas as suas esperanças, e os seus dois parentes de nomes inglesados deixaram de se nos opor.

O Barão de Cabinda habita ainda no fundo da bahia, sitio de Simelambúko (Julgo que este termo, que escrevi como o ouvi, é uma corrupção do que devera dizer-se, porque a alguns Cabindas ouvi que este nome quer dizer terra do Mambúko; ora, a tradução de chão, terra, é necí, a proposição é ia ou i  e Mambúko designa um elevado grau da nobreza indígena, donde me parece que o sitio deverá chamar-se necí-i-mambúko, ou necí-mambúko, e quando, muito, simambúko.), uma casa de madeira com primeiro andar, já bastante estragada, situada em um outeiro e servindo de marca para demandar o fundeadouro.

E' o Mambúko mais antigo, pessoa de grande consideração para os indígenas (que vão abusando da idade e bondade do velho) e de respeitabilidade para os europeus. Seus filhos Vicente, ha poucos anos falecido (1895), e João, foram educados em Portugal onde chegaram a fazer alguns exames no liceu de Coimbra, deixando fama de valentes e atletas; dedicando porem pouca atenção aos estudos, recolheram a Cabinda. Vicente foi empregado de casas comerciais, professor de primeiras Ia letras e, depois da nossa ocupação, amanuense de repartições mas finou-se pela doença do sono, tendo sempre conservado amor aos portuguezes e claros indícios de civilização. João, o mais novo, pouco a pouco regressou ao estado selvagem, e hoje não é fácil distingui-lo de qualquer outro Cabinda dos menos civilizados.

Francisco Franque morreu antes da nossa moderna ocupação territorial, e os seus parentes dividiram entre si os bens, nenhum conservando a autoridade de que ele gozará. A sua casa, também de primeiro andar, ha muito deixou de existir; vi-a em ruínas em 1883 ; era situada no planalto inferior ao outeiro onde hoje se acha a torre do relógio. Pertenciam-lhe os terrenos onde hoje há a vila de Cabinda (Oficialmente foi-lhe dado em 1896 o nome de D. Amélia; ninguém, porém, conhece tal vila por este nome e continua o uso exclusivo da designação anterior), e a sua povoação principal era a de Porto, Rico, nome a que os roteiros e cronistas se referem e cuja praia é actualmente utilizada por nós.

Um sobrinho de Francisco Franque, de nome Francisco Rodrigues Franque, também conhecido por Chico Franque, esperto e com instrução tornou-se negociante, adquiriu alguma importância no sitio e quis substituir o tio, para o que lhe faltavam os requisitos exigidos pelas leis indígenas. Foi muito a nosso favor, serviu de interprete nos actos oficiais de 1885, e, decaindo, pouco a pouco em prestígio e dinheiro, suicidou-se no dia 12 de março de 1895, com um, tiro de espingarda no coração, como verifiquei, encostando o peito à boca da arma e desfechando com o pé. Interrogando vários Cabindas dos mais velhos, cheguei a conclusão de que em Cabinda foi este o primeiro suicídio por arma de fogo.

Não permitiam os ingleses que ocupássemos a costa ao norte do Ambriz; tínhamos varias vezes, com aquiescência e até a pedido d'elles, feito a policia do baixo Zaire e da costa desde Ambriz até Mayumba, quando Stanley descia o Congo e Brazza alargava a Colónia do Gabão. Este explorador estendia este domínio francês pela costa abaixo, passava Mayumba, comprava terrenos em Loango (Foi protegido nestes trabalhos por um português (e só assim teria a facilidade que encontrou), negociante de influencia nos indígenas, de apelido Sabóga, que assim desejo que fique consignado no pelourinho da execração pátria) quando, fazendo parte da guarnição da canhoneira Bengo, ali estive em março de 1883. Brazza tentava então adquirir terrenos em Ponta Negra, onde se apresentava uma canhoneira francesa, com o nome apagado recentemente, que se dizia Auriflamme, comandada por Cordeira. Suspeitámos que era a sua irmã gémea, a Sagittaire, a cujo bordo se sabia andar o explorador italo-frances, que assim diplomaticamente se furtava às visitas e reclamações dos comandantes dos navios portuguezes.

Agitava-se a diplomacia europeia a favor do rei Leopoldo da Bélgica e dos ambiciosos que o punham em evidencia; tramava-se o que depois fez a Conferencia de Berlim postergando os nossos direitos, desprezando as nossas alegações, etc., quando os principais indígenas de Cacongo e Massabi se submetiam ao nosso Protectorado.

Em Janeiro de 1885 as autoridades indígenas de Negoio (N'Gôio) pediam o protectorado português, e a corveta Rainha de Portugal tratou com eles (Deve notar-se que esse tratado era feito com os representantes de todos os indígenas, com os Chefes e grandes, três dos quais sabendo ler e escrever, e não como os tratados que a Associação Internacional, predecessora do Estado Independente, diz ter celebrado e que tem apenas as cruzes dalguns chefes e dos interpretes e as assinaturas de agentes europeus.

Apenas dois Príncipes subalternos deixaram de comparecer à nossa reunião, King Jack, habitando miserável choça na ponta de Taffe, que fugiu mas mandou procurador, e Luemba Franque, que residia onde hoje se construiu o palácio do Governo e não é o citado no tratado ; todos os outros membros da família Franque nos eram favoráveis, só naqueles dois influíra o dinheiro do vizinho feitor inglês), no dia 1 de Fevereiro, o que consta do documento cuja copia autentica deixo transcrita (9). Tive o prazer de assistir a esse acto verdadeiramente imponente no género de tais reuniões  a que chamam fundação (10), acto que coroou as diligencias do meu amigo (que o foi depois) Manuel António da Silva, negociante muito da confiança dos Cabindas, por cujo intermédio correram as negociações preliminares e a cuja influencia e boa vontade muito se ficou devendo.

Dias depois instalava-se em Cabinda a autoridade. portuguesa com o nome de residente em Fevereiro de 1885 ainda, a Conferencia de Berlim ( O modo, verdadeiramente vergonhoso, como as nações ali reunidas desprezaram tantos direitos e tantas provas d'elles, oferecidos por nossa parte; como presentearam com o que não era seu quem teve influencia para torcer o direito ; os sucessivos actos dessa espoliação e as razoes que militavam a nosso favor ; tudo se encontra esparso por varias obras que facilmente podem :ser consultadas. Mas, desejando arredar do meu estudo tudo o que se refira a política e administração, nada mais direi. A obra mais desenvolvida que conheço e escrita por pessoa que interveio por vezes nos assuntos que se referem ao Congo português é "Um anno no Congo", por Jayme de S. Forjaz de Serpa Pimentel, primeiro publicada em sucessivos números de 1899 da revista Portugal em África.

Mas também será útil outra pequena obra
moderna, e também escrita por pessoa que viveu lá e andou envolvida em assuntos administrativos, antes da posse do primeiro governador, é o "Esboço histórico do Congo e Loango nos tempos modernos" (contendo uma resenha dos costumes e vocabulário dos indígenas de Cabinda) por José Emílio dos Santos e Silva - Lisboa - 1888. ) reconhecia-nos a posse do País de Cabinda (Todo o território português ao norte do Zaire, compreendendo os de Cabinda, Molembo, Cacongo e Massabi) que, com outros terrenos ao sul e leste do Zaire, veio a formar o Distrito do Congo ; no dia 14 de Julho de 1887 chegava e desembarcava a expedição ocupante de que fui medico, tomando posse nesse dia (Diz-nos o calendário que tal dia era o de S. Boaventura o que aos crentes parecia ser de bom pressagio para o distrito, ideia que a decadência precoce, já hoje bastante sensível se encarregou de desmentir.

Chamou-se rua de S. Boaventura à estrada então já feita, a primeira rua no seu todo percorrida pela expedição que vinha ocupar o Congo. Por uma das manias que ha anos perseguem os portuguezes, foi, anos depois, esse nome trocado por outro que nada exprime, pelo dum governador que não se salientou dos outros ainda, os crentes poderão ver no facto da mudança a razão da versatilidade da sorte do distrito) o primeiro governador (11).

O diploma pelo qual se constituiu o distrito do Congo, fazendo parte da Província de Angola é de 18 de junho de 1885, e o regulamento fundamental é de 31 de maio de 1887.

Não se indicou naquele diploma onde seria a capital do distrito mas, ponderadas as razões, sobretudo políticas, com o concurso das qualidades do porto e vias de comunicação, fora escolhido para tal fim o porto de Cabinda e dera-se começo as construções que os operários, que nos acompanhavam, iam desde logo desenvolver.

Em poucos meses todo o distrito fora oficialmente ocupado quase sem emprego de força a não ser no Quicembo (As dificuldades que os indígenas nos ofereceram neste ponto da costa, foram evidentemente devidas a instigações dos ingleses que ai habitavam, negociando em feitorias ha bastantes anos, banindo cuidadosamente de lá todos os portuguezes e pedindo o auxilio de navios de guerra da sua nação quando tinham que sustentar questões com os Cabindas ; os navios ingleses por vezes pediam, a nossa interferência.

E' o Quinsembo das cartas inglesas) nos territórios de Cabinda fomos recebidos verdadeiramente como amigos, confiando na nossa protecção contra questões previstas de sucessão e de partidos ; os Cabindas viam em nos uns libertadores, chegávamos a propósito para cortar questões e rivalidades intestinais que a falta de Rei e a sucessão de Chico Franque começara e que a de Puna viria agravar. Demais para o povo, aparecia-lhe de repente em nos uma verdadeira mina a explorar em todos os sentidos ; a vizinhança dos europeus é sempre muito desejada, pelos Cabindas cujo espirito mercantil e a viveza natural os faz tirar d'ella grandes vantagens sem que pareça darem grande peso a humilhações.

Quando ocupámos o Congo, residia em S. Salvador um verdadeiro selvagem no semblante, na linguagem, no gesto e no proceder ; era o que os portuguezes conheciam por D. Alvaro d'Agua Rosada, um Rei dessa, dinastia que acompanhara a decadência do seu império negro e que começara em 1701 por D. Pedro d'Agua Rosada. Tive, infelizmente, ocasião de lidar uns dias em Cabinda com esse pretalhão, denunciando fereza em todos os ademanes, com essa fera doente, desconhecendo e não avaliando todos os cuidados e comodidades que lhe proporcionei no hospital ; e ainda mais farto fiquei da colecção de brutos que o acompanhava, dos grandes da sua côrte.

Foi o caso que no fim de I894 o superior da missão portuguesa em S. Salvador aconselhou a majestade negra a vir a Cabinda tratar-se e com ela desceu do sertão acompanhado de magna caterva de verdadeiros selvagens ; acto a meu ver repreensível que nos podia ter originado bastas complicações. Primeiro foi preciso vencer a crença indígena de que o Rei do Congo não deve ver o mar; depois teve necessidade o reverendo de se deixar acompanhar por grande numero de nobres, selvagens desconfiadissimos imaginando que se lhes queria raptar a majestade; enfim, lá veio esse sanguinário pretalhão para se tratar dos seus padecimentos. Muito antigos sofrimentos de urethra e de bexiga haviam produzido os seus efeitos até um grau avançado, e o Rei não queria modificar o seu regímen nem abandonar as copiosas libações alcoólicas. Era preciso isola-lo do meio, sujeita-lo a tratamento demorado e rigoroso ; foi para o hospital de Luanda e dali para Lisboa, donde voltou melhorado em abril de 1895. Entrado de novo nos seus hábitos e nos seus vícios, faleceu na sua capital aos 18 d'outubro do mesmo ano.

O seu sucessor que parece vira a ser D. Pedro VI, mas que por enquanto se chama Lélo, acha-se a educar na missão de Huilla e, tendo apenas nove anos quando foi proclamado Rei, forçoso foi ficar o reino governado por um negralhão boçal que em tempos foi carregador de tipóia.

Não sei até que ponto convirá abrir os olhos do reisinho à luz da civilização, mas abundam os exemplos de nos ser prejudicial a instrução que damos aos indígenas que mandam nos terrenos que consideramos nossas colónias; umas, tinturas de civilização parecem-me mais prejudiciais para nós do que a simples boçalidade africana ; o futuro dirá se é melhor não seguirmos os modernos exemplos das nações colonisadoras, e deixarmo-nos arrastar pela nossa sentimentalidade para um ideal problemático de ilustração, d'amisade e de justiça.

II

População, carácter

Cabinda é uma terra muito populosa e não devia ter menos de vinte mil pessoas quando se fez a ocupação ; hoje a emigração e as doenças teem diminuído muito o numero, talvez reduzindo-o a metade, mas não ha elementos para um calculo, mesmo aproximado. Pelos caracteres morphologicos, querer ir na classificação dos negros de Cabinda até tal ou tal ramo do grupo bantú, é tarefa completamente impossível. Desde muito novo, 6 a 7 anos, o Cabinda esta pronto a emigrar para qualquer parte, a ganhar a vida fora da pátria, aí conserva, ou pouco modifica, os seus costumes; onde os filhotes se juntam em grande numero, aggIomeram-se num bairro de que fazem uma espécie de segunda pátria ; mas é sempre n'elles vivo o desejo de voltar a esta, quer por pouco tempo quer para se fixarem.

E' tão trabalhador fora da sua terra como mandrião n'ella (12) ; ocupa-se sobretudo de serviços domésticos ou marítimos (13), mas sujeita-se a todos os trabalhos, mesmo àqueles que, entre os seus, são considerados degradantes, quando executados em Negoio (os agrícolas especialmente). Por esta forma, trabalhando, em pouco tempo cada Cabinda junta um pecúlio que envia para a terra ou que ele mesmo vai ali colocar.

Obtido certo capital, o Cabinda fabrica uma casa à sua moda (14), e procura mulher com quem case (15), constitui família, também à sua moda, e torna a emigrar para arranjar mais fazenda (39) etc., até que se julgue nos casos de satisfazer as suas pequenas necessidades ; então repatria-se, vota-se aos prazeres e à quase. absoluta ociosidade.

Entre o que adquire nas suas peregrinações em busca da fortuna, não se esquece de preferir uma pequena escrava (37) que possa comprar na localidade onde presta os seus serviços aos brancos. Escolhe sempre uma criança do sexo feminino; criança, para ser menor o custo, do sexo feminino, para ser criada da sua mulher, e sobretudo porque são as mulheres e os filhos o que ha de constituir a sua principal riqueza (39).

Essa criança de tribo diferente, sujeita a todos os usos e costumes fiótes, passa a fazer parte da família Cabinda, perde todas as noções da sua tribo, embora conserve os seus caracteres de grupo. Chega-lhe a vez de ter filhos e transmite a estes, mais ou menos modificadas, as suas qualidades, as suas feições, os seus caracteres distintivos que, pelas reproduções sucessivas, se vão abastardando, confundindo. Deste costume indígena resulta em primeiro lugar o aumento da população (coisa de capital importância para os Cabindas, resultado provocado e favorecido por vários costumes e leis) mas resulta também uma confusão de características, um baralhar de caracteres que nos apresenta o Cabinda como um indivíduo da raça negra, um bantu certamente mas de tal modo abastardado que não se pode incluir nesta ou naquela subdivisão do grupo.

Ao lado do extremo prognatismo, raro, vê-se a maxila regular ao lado do negro franzino de formas delicadas, o rapagão de formas hercúleas ; ao lado da estatura meã a elevada, etc. Com tudo, ou porque predomine o numero de certos indivíduos, ou porque o clima a educação, os usos, a abastança relativa, etc., modifiquem os tipos, certo e que geralmente o Cabinda está longe d'apresentar o corpo disforme de outros negros com feitios tão diferentes dos brancos ; é um homem regularmente musculoso, de formas airosas quando ainda não velho; na rapariga Cabinda encontram-se com frequência figuras esbeltas, corpos modelados com elegância sem auxilio d'espartilhos, etc., verdadeira mulher que chamaríamos formosa se não fora a côr e a carapinha.

As crianças tem uma figura miúda mas com o ventre bastante proeminente ; o umbigo, geralmente saliente, numa ou outra vez herniado por defeito de tratamento nos primeiros dias de vida extra uterina ; os olhos, grandes, pretos, à flor do rosto, muito vivos e meigos guarnecidos de longas pestanas reviradas, são realmente bonitos ; os cuidados, a amamentação, favorecem o desenvolvimento (30).

A mulher entrada ha pouco na puberdade, de côr poucas vezes bem negra, geralmente castanho-escura, tem mãos e pés pequenos, delgados, sustentando uns membros inferiores fortes, torneados, engrossando, do pé ao joelho pouco a pouco, e fortemente para cima até constituírem, as nádegas volumosas a bacia ampla, bem conformada na generalidade, termina-se numa cintura delgada quase metade da bacia, e o tronco alarga-se rapidamente formando um tórax desenvolvido, de seios cónicos, rijos, proeminentes, com mamilos grossos, salientes o pescoço proporcionado ou antes um pouco desenvolvido, termina se por uma cabeça pequena, pouco dolycocephala ou arredondada, de orelhas curtas e delgadas, de nariz pouco achatado (ás vezes perfeitamente caucásico, pequeno e proeminente), de lábios não grossos, não raro mesmo bastante finos, sobretudo o superior, d'angulo facial pouco obtuso, regiões malares pouco salientes, olhos grandes, rasgados, em amêndoa como vulgarmente se diz, pálpebras delgadas, bem guarnecidas de compridas pestanas sedosas, sobrancelhas acentuadas, curvas, e testa quase sempre curta mas de bossas frontais apreciáveis.

Os membros superiores, raras vezes são fortes no sexo feminino ; delgados, bastante compridos, mas torneados e abundantes de linhas curvas, terminam por mão breve, estreita, de dedos longos, articulações delicadas e unhas compridas e convexas. A estatura, de 1m , 50  a 1m , 70, nada oferece de particular, nem altera o tipo acentuadamente femenil da mulher Cabinda.

O homem é geralmente mais alto, com quanto sejam poucos os de estatura elevada, ainda assim sempre abaixo de 1m, 90  ; no conjunto semelhante à mulher, mas mais reforçado tem o tipo verdadeiramente másculo, o tronco não muito desenvolvido mas proporcional aos membros inferiores, poucas vezes é arcabouço d'athleta, no que é seguido pelos membros superiores longos como é próprio da raça negra.

O homem é o tipo reforçado da mulher , mais alto, mais grosso, não se lhe acentua porem uma tal superioridade de vigor, que não seja, a distancia, fácil confundir os sexos; o europeu pouco habituado, encontrará por vezes dificuldade na distinção, mesmo de perto. A quase generalidade dos Cabindas tem muito pouca barba, um ligeiro buço, poucos pelos na face próximo das orelhas; em alguns ha maior extensão da face com cabelos, e o bigode toma certo desenvolvimento ; em raros a barba é completa. Também não abundam os pelos do corpo, excepto nas axilas, no púbis e do joelho para baixo ; são poucos os exemplares de braços cabeludos e ainda mais raros os de pelos no peito.

Se é verdade, como diz a tradição, que foi grande a longevidade, não sucede hoje assim. Duvido porém do que se consegue obter neste caso das informações verbais colhidas, e duvido porque o negro aprecia a idade apenas pelo aspecto senil, não contou o tempo da vida (34). Existe, sim, um ou outro Cabinda de mais de 80 anos, como o bom Barão Puna sujeito forte, bem desenvolvido, solidamente construído e saudável ; mas isto e raro, e a generalidade dos Cabindas, referindo-se à idade de Puna, faz tais espantos que é licito supor que os exemplares assim são duma extrema raridade. São actualmente considerados velhos, e têm aspecto disso, indivíduos que não pareciam poucos anos antes quando os vi pela primeira vez.

O Cabinda conserva-se infantil por bastantes anos, torna-se adulto em pouco tempo, envelhece de repente (48) ; e esse aspecto alquebrado, essa cabeça e barba bastante semeadas de cãs, essas rugas das faces, mais cavadas ainda junto dos olhos, essas conjuntivas oculares amareladas raiadas de vermelho, essa pele baça, escamosa, esse emagrecimento, esse tremor de mãos, esse cansaço na marcha (coisa desconhecida nos novos), essa perda das forças vitais, especialmente da virilidade, esse embrutecer sucessivo e rápido, tudo isso é devido à idade?  O homem assim é velho, pode não ser idoso; é uma senectude como a dos 70 anos que vem dos 40 aos 50 ; o indivíduo está gasto pelos excessos Venéreos e alcoólicos, está velho pelo álcool de má qualidade em grande quantidade durante toda a vida, desde o berço ao túmulo (49).

E' uma velhice prematura ; as suturas cranianas não estão completamente ossificadas, apesar desse facto ser precoce na raça negra; os dentes conservam-se todos ou quase todos, e, nos poucos cadáveres que pude observar, os ossos, sobretudo o colo do fémur, as cartilagens, as meninges não denunciavam macróbios ; eram a hypertrophia cardíaca, as lesões valvulares dessa víscera, os atheromas das artérias, as scleroses viscerais, as lesões do alcoólico, que haviam tornado velhos os orgaos, dado o aspecto de velho ao homem por cima do qual não haviam passado muitos anos de vida.

Creio até que a maioria dos Cabindas não vai além dos 50 anos d'edade; o álcool, a crapula, a satisfação desmedida de prazeres esgotantes, arruinam e matam todos aqueles a que os desastres, as epidemias, a ignorância dos seus mezinheiros, os seus usos religiosos, etc., deixaram passar o período da maior actividade vital.

Vê-se, pois, que já estes factos, auxiliados por outros que irei enumerando, nos explicam porque a população pouco cresce, e por vezes bastante diminui, apesar dos cuidados indígenas para que aumente o numero dos governados. Estes cuidados, que o estudo dos costumes nos faz crer estarem longe de serem desinteressados e para bem do povo, manifestam-se em muitas circunstancias, mesmo tratando-se de negócios graves como tive ocasião de ver na celebre fundação do Protectorado e ainda depois. Não se esqueceram então vários Chefes de pedir que , os brancos pozessem. dificuldades ao verdadeiro vicio de emigrar que se apodera do Cabinda logo em tenra idade, e frisaram um facto a que davam ainda maior importância, a emigração das mulheres; queriam e querem eles que os brancos evitem totalmente a saída das mulheres para outros pontos, coisa que lhes é impossível conseguir, apesar de todas as dificuldades que tem inventado sob milhares de pretextos, coisa que as autoridades europeias não podem razoavelmente evitar, coisa que mais e mais se tem, desenvolvido por a Cabinda ser a concubina mais fácil d'obter e melhor para agradar (27).

Mas este êxodo da mulher prejudica a economia indígena por vários modos; ela deixa de cultivar a terra, o que não tem compensação nos haveres com que recolhe e que ganhou durante o exílio; adquire hábitos de maior dispêndio no vestir e no viver; desabitua-se dos trabalhos pesados que, por costume, lhe estão reservados na família, algumas vezes gera mulatos de que nem sempre os pais tomam conta e que não são apetecidos pela tribo (23) ; e, principalmente, fazem eles notar, deixaram uns anos de dar filhos negros, facto da maior importância para as famílias e para os grandes (69).

O estabelecimento d'europeus em muitos pontos onde ha pouco não os havia ; o aumento, rapidamente crescente, do numero de brancos ; a fama justificada dos Cabindas para os serviços caseiros; e a falta, quase total, de mulheres brancas; tem determinado, nos últimos quinze anos, extraordinária procura de Cabindas dos dois sexos para pontos os mais diferentes, para lugares onde não se ouvira falar de tais negros, para sítios onde eles vão substituindo todos os outros no serviço dos brancos, mercê da sua docilidade e aptidões, mercê das boas qualidades para o serviço que tanto mais e melhor se manifestam quanto mais afastada da pátria é a localidade para onde emigraram. O fiote, com a sua esperteza inata e com o seu sistema d'amplas informações (62), sabe bem como e até onde pôde agradar ao branco, como por essa forma é fácil explora-lo, como se lhe torna o companheiro das laboriosas ocupações, e como d'ahi lhe vem uma protecção lata e poderosa contra as necessidades e contra os outros negros, tutoria que o Cabinda tem na máxima consideração para sua segurança e para seu interesse.

O europeu, e especialmente o português (50), se não por qualidade própria do seu caracter ao menos pela necessidade que o habito lhe faz conhecer e avaliar, cumpre religiosamente o que vocalmente combinou com os negros que o servem (45) ; é, muitas vezes mesmo, enganado e explorado pelos próprios negros e até por outros brancos (47), mas faz que não percebe o logro quando não tem dados e argumentos com que o prove, convencendo, segundo as leis indígenas a que nestas relações tem de sujeitar-se (51).

Não sucede assim com o Cabinda : por todos os ; modos emprega a sua astucia com o fim de ganhar nos contractos; sophisma tudo o que pode pelo modo que maior interesse, lhe dê contra o branco (E' muito mais cauteloso quando o contracto é com outro Cabinda, porque, então o caso é serio, pode até ser grave ; com os brancos não sucede o mesmo porque, tratando-se geralmente de coisas para o europeu insignificantes, não vale a pena gastar o tempo necessário para proceder, com todo o cerimonial e delongas, à prova do delito e à recepção da indemnização arbitrada) ; recorre a subterfúgios, que facilmente lhe acodem e rapidamente executa, para se eximir à responsabilidade dum. facto, para o lançar à conta d'acaso, etc. ; e, se doutro ,meio não se lembra a tempo, nega, nega, nega sempre, nega apesar de tudo, o que faz desesperar o branco que manifesta a sua cólera por palavras ou por agressão ; e o que o Cabinda quer ; desde esse momento o europeu não pode levar a sua causa perante a justiça indígena (60).

O Cabinda é geralmente meigo, não responde a uma agressão, torneia as dificuldades e os perigos sem nunca os encarar de frente; com uma paciência acima de toda a medida, espreita a ocasião de fazer o que pretende ou de conseguir o que deseja; é ,tenaz e dissimulado até ao ultimo extremo. E'lhe assim fácil enganar o europeu, ficando ainda no gozo de certa confiança e, quanto mais e melhor o enganar, maior será a consideração em que será tido pelos seus, mais provas terá dado da sua esperteza, maior será o seu valor; poderá qualquer outro Cabinda vir a conhecer o facto, poderá até ter meios de o provar, nunca denunciará perante um europeu outro indígena; mas, se os mesmos actos prejudicarem um Cabinda em vez dum branco, irá, na maioria dos casos, fazer a denuncia para lhe colher o prémio. Esta diferença prova bem o ódio de raça que em muitos casos se manifesta: assim, se o logro, em vez de feito a branco for a negro, o Cabinda será castigado, ás vezes até com rigor demasiado, sofrerá a desconsideração dos seus, será obrigado a dar indemnização, grande relativamente.

Um prejuízo ou um furto causado a um branco é considerado acto meritório, aplaudido, motivo de riso, de facécias, de canções até; a família participa do regozijo e prestigio que advém ao criminoso. Se porem ha indícios de que o europeu vai alem das desconfianças, se sabem que descobriu alguns indícios, são, até os parentes mais próximos que vêm apresentar o criminoso ; com isto obtém para este uma lição para o tornar mais cauteloso, no futuro, procedendo com mais arte, e conseguem, pedindo clemência, que o patrão perdoe, no todo ou em parte, o dano causado; é ainda um modo de enganar o estrangeiro, e ficarão alerta, para ajudarem o africano a praticar depois actos semelhantes, para mais facilmente poderem conhecer se o branco nutre novas suspeitas, e, em ultimo caso, para favorecerem a fuga do parente, encobrindo-o, negando a sua presença, etc.

Dados os costumes indígenas, a fuga é sempre fácil, executa-se por qualquer coisa, é um meio sempre à mão, e quase sempre seguro, de se furtar a qualquer coisa desagradável, incomoda ou perigosa. Do serviço do europeu o Cabinda foge constantemente, foge pela razão mais simples, foge até sem motivo aparente : neste ultimo caso algumas vezes e por estar aborrecido e desejar mudança de patrão, de serviço, de localidade ; mais vezes é para ir ter mais interesses noutro ponto ou para se furtar a responsabilidades contraídas naquele lugar para com outros indígenas ; mas, em grande numero de ocasiões, é porque foge a castigo merecido por furto ou logro praticado para com o europeu, coisa que este ainda não, sabe, que ás vezes até não virá a saber, mas que o fugitivo desconfiou que começava a ser descoberta; em outras e porque adiantadamente recebeu valores que representam o pagamento de serviço ainda não feito; é outro meio de ludibriar o branco.
 

O Cabinda foge dum lugar onde haja bastantes exemplares duma mesma doença, sobretudo se esta é a varíola, que lhe produz verdadeiro terror. Foge se o seu superior, pai, tio ou Príncipe, é muito exigente em qualquer coisa; foge se se julga bulhento, questionador ou caloteiro; foge ao credor, foge sempre que se lhe afigura que vai sofrer seja o que for, foge ate de feitiços que a sua imaginação criou (125), quase pode dizer-se que foge pelo prazer de fugir. Muda-se ás vezes só para centenas de metros de distancia, muda-se para terras subordinadas a outro chefe, muda apenas de localidade, expatria-se até por anos, voluntariamente; mas, neste caso, recolhe com cuidado tudo o que pode saber por novos emigrantes e, quando julga conjurado o perigo, volta à sua povoação; ás vezes, porém, julga mal, porque a impaciência de voltar não lhe deixou pesar bem as probabilidades de escapar aquilo que o fez fugir.

Realmente, o amor pelos parentes é tão fraco, a amizade pelas outras pessoas é tão pequena, os haveres são tão medíocres, a casa é tão sem valor e tão fácil de refazer, as necessidades da vida tão rudimentares, que nada parece mais fácil do que abandonar tudo para ir viver em outro sitio; nos Cabindas só é profundo o amor pátrio, só é arreigado o gosto pelos seus costume, só é ideal a ociosidade e o prazer; toda a vida pensa nisto, todos os meios são bons para conseguir estes fins, e são tanto melhores quanto mais rapidamente se atingir o desejado. Não ha pois virtude nem honra, não ha brio nem dever; ha interesse ou medo, vaidade ou prazer.

Costumámos gostar dos Cabindas por os vermos procurando em tudo a nossa protecção, temo-los por umas creanças grandes ; são realmente muito aproveitáveis para vários serviços grosseiros em que os empregamos; são dóceis por medo e calculo; são auxiliares úteis , mas não devemos depositar neles a mínima confiança, principalmente quando as circunstancias lhes possam fazer crer na impunidade.

O Cabinda é muito diferente na sua terra ou fora dela ; quanto menos tem a temer pior e; arrogante e forte, até à crueldade, com o fraco, é submisso, servil, baixo com o forte ; de aparência franca e génio moderado e sofredor como parece. Tenaz e paciente com a mira no que deseja, sofre as maiores humilhações parecendo até não dar por elas (163), contanto que se aproxime do seu fim ; mas se para o conseguir mais depressa, se apresentar ocasião de proceder de outro modo, furta, intimida o fraco, ameaça agride mesmo, com tanto que esteja convencido de que disso lhe não resulta mal.

Quando novo, quase todo o Cabinda é vivo, esperto, sagaz mesmo; aprende com vontade, deseja saber (63) para mais facilmente adquirir, para mais se elevar entre os seus, para mais facilmente dominar o que puder, conseguir os seus fins, obter os meios de mais cedo ficar ocioso e regalado. E' um homem pratico e moderno como se costuma dizer de certos brancos que em muitos pontos com ele se parecem, ate na gramática e na sintaxe das respectivas línguas.

Outro ponto que muito os aproxima é o gosto que os Cabindas teem pelo mar, bem denunciado na significação que ligam e na expressão com que acompanham a certas frases: assim preto do mato (pronunciando com desprezo) é preto selvagem, sem qualidade alguma boa (Também dizem : barranco do mato (branco do mato) quando se referem aos novos dominadores do Zaire, com que muito antipatizam.)  muito inferior ao Cabindez; Cabinda d'água doce (com ar de troça), é Cabinda de fraco valor, pouco aproveitável, ignorante ; Cabinda d'água sárgádo (com expressão da vivacidade velhaca), ou macaco véio (macaco velho), é Cabinda quase à altura do europeu, que pode prestar muitos serviços, preto sabedor, experimentado. Realmente são atrevidíssimos nas suas pequenas embarcações (66) em que andam com todo o tempo e em todas as idades ; tripulam palhabotes e outros barcos costeiros em que, sem auxilio de qualquer europeu, sobem o Zaire, navegam na costa até muitos dias de viagem para sul e norte (Raras vezes perdem terra de vista e, quando é necessário bordejar, não se afastam da costa mais de 12 a 15 milhas), tripulam os escaleres dos brancos na província de Angola e na de S. Tomé, auxiliam as guarnições dos nossos navios de guerra em estação, servem de chegadores em varias maquinas marítimas, removem carvão, ajudam na carga e descarga nos paquetes e, nestes como em outros navios, prestam-se a vir a Portugal (64), e mesmo a Inglaterra (conheci cinco exemplos), contanto que a ausência não seja prolongada.

Mas se repararmos em quanto é manso o Atlântico ali, no equador, o que eles vêem e conhecem, o chamado mar das patas, e se soubermos que extraordinária confiança depositam no saber dos europeus, admiraremos, menos que os outros africanos, a audácia dos Cabindas no mar e poderemos supor que eles terão medo de navegar noutras condições (Numa viagem que, em 1884, fiz na corveta Rainha de Portugal até 32' de latitude sul e muito para oeste do cabo da Boa Esperança, iam uns 30 Cabindas que costumavam fazer o serviço das embarcações miúdas da corveta na estação naval de Angola; experimentados pelo mar logo ao sul de Mossamedes e depois quando atravessámos para a terra que tomámos por 27', sem que o temporal fosse tal que qualquer dos portuguezes desanimasse, tive ocasião de ver os Cabindas perdidos de medo, escondidos nos corredores à volta da casa da maquina por causa do frio, não se levantarem nem apareceram no convés, mal comiam, estavam totalmente desanimados, quase mortos de medo, indiferentes a tudo, embora não enjoados. ) ou muitos dias sem ver terra.

 

No conhecimento do seu pais e dos seus usos e leis, no das profissões que exercem, julgam-se uns sábios e sorriem-se com desdém de que haja europeu que possa saber mais; fora porem disso, em todos os outros ramos dos conhecimentos humanos, reconhecem a superioridade do europeu (50), admiram o que vêem produzir ou conhecer (Espiam cuidadosamente o que se passa, fazem até perguntas para se instruírem, tentam depois executar, imitam bem, tudo com a mira em se aproveitarem, para os seus fins, da superioridade que esses conhecimentos lhes dão sobre os próprios conterrâneos.), mas não que se produza ou se conheça; todo o branco, crêem, sabe tudo o que o africano não sabe, e só não executa o que pretende quando não quer; ha umas excepções a esta regra, o branco não sabe deixar de adoecer nem dar vida aos mortos ou deixar de morrer. Supõem que os brancos teem meios mecânicos perfeitos e expeditos, para fazer tudo e que não lhes ensinam o que não querem que eles saibam; esta opinião vem provavelmente do conhecimento que teem de certas maquinas de que sabem usar, como as de vapor, as de costura, as do fabrico de telha e tijolo (que vêem lá funcionar na fabrica do governo), as locomotivas, as metralhadoras, os relógios, etc. Contribuiu muito para me granjear consideração o facto de me verem tirar pintos com uma chocadeira.,

Ha indígenas bastante espertos, inteligentes mesmo, e todos esses ou quase todos são adivinhos, feiticeiros ou cirurgiões segundo o seu modo de ver muito diferente do que é entre nós (70). D'ahi vem o respeito pelos padres e médicos europeus, ou antes medo, receio de que esses indivíduos se sirvam dos superiores e desconhecidos meios d'acção que de certo devem possuir e que podem empregar em prejuízo do nativo; procuram com mais empenho agradar aos indivíduos dessas classes, fazem-lhe menos partidas, mas não deixam de ceder uma ou outra vez à tentação de o ludibriar, apesar de tudo.

O Cabinda é geralmente sóbrio na comida, mas bebe bastantes vezes mais do que pode; sujeito ao poder do álcool é quase sempre alegre, comedido, raras vezes bulhento, não sei se alguma vez sanguinário ; se é verdade que in vino veritas, devemos acreditar que, apesar de todos os defeitos de educação, o caracter é bom, manso, ordeiro. Obrigado, por correcção, a assentar praça,  (Tem horror pela vida militar de terra e pelos que a exercem, sobretudo sendo pretos ; e tem razão, força é confessa-lo , o soldado d'Angola, ou preto ou branco (deportado ou degredado), é um mau exemplar da disciplina, abusa sempre da influencia da farda e do armamento para cometer toda a qualidade de extorsão e até muitos crimes, grande numero de vezes ignorados por se passarem fora da vista dos oficiais; alguns destes casos teem dado origem a rebeliões e a guerras, como sucedeu no planalto de Mossamedes e em tantos outros lugares; é esta talvez a origem de quase todas ou mesmo de todas as insubordinações e revoltas dos africanos contra os europeus.

Pelo contrario, com a gente do mar os Cabindas simpatizam muito ; um marinheiro é um amigo, é uma mina a explorar na bolsa, nos ensinamentos, na companhia abordo e na orgia em terra. ) faz serviço corno os outros africanos deserta se pode fazelo a salvo; levado para a Guiné ou Moçambique, o que considera o maior castigo que o branco pode dar-lhe, receando mais estar só com pretos desconhecidos do que com os brancos, não foge, bate-se se é forçado a isso, mas falo modestamente

Achar é o seu forte, é a mais apetecida fonte dos seus haveres, quer o achado seja devido ao acaso quer aos seus manejos e disposições (71). Não me refiro ao costume de confundir achar com furtar: todo o nativo desta tribo dirá que o Cabinda não furta, acha; refiro-me realmente a encontrar o perdido. Se encontra esquecido ou abandonado qualquer objecto, apropria-se deste e não procura o dono : nega mesmo que o tenha encontrado e desfaz-se dele para longe por venda ou em troca de serviços recebidos ou que espera receber; só restitui se tem suspeitas mais ou menos fundadas de que o possuidor saiba que foi ele o achador. Muitas vezes tapa, encobre um objecto para o fazer esquecer, ou muda

lhe de lugar, vai afastando-o mais e mais de dias a dias até o tomar para si ; e' o processo que mais trivialmente emprega para furtar ao europeu pequenos valores. E' dono do objecto arrojado à praia quem primeiro lhe deitou a mão.

Imita os europeus em todas as coisas que não vão contra os seus costumes a que dá apreço, mas perde estes trocando-os pelos dos brancos se os julga mais proveitosos; não raras vezes o criado imita perfeitamente o amo no falar, no trajar (79), no andar, em toda e qualquer maneira de ser que, por fora do usual lhe provoca a atenção; à custa disso diverte os amigos e diverte-se.

Geralmente de génio folgazão, muitas vezes cantando (91), faz todo o possível por levar vida folgada; poucas coisas o entristecem deveras, é uma excentricidade rara o suicídio (82); das coisas que mais cuidados dão aos europeus, umas desconhece-as, outras não lhe dão abalo e as outras sente-as muito menos do que nós. A par desta falta de sensibilidade moral, notei muitas vezes que também é diminuta a sua sensibilidade à dor física: uma doença dolorosa, uma queimadura um golpe, uma operação sangrenta, não lhe despertam crises nervosas nem grandes manifestações, quase só a quietação e o mutismo (em todas as outras circunstancias nada habituais) denunciam tal facto.  

A vivacidade é grande; a inteligência, por excepção desenvolvida (47); este indígena e' maior numero de vezes esperto, ladino, do que obtuso ou bronco; nisto influi muito a idade. Dum modo geral pôde dizer-se que toda a criança é viva e esperta ; o adolescente aprende fácil e rapidamente; o discernimento dentro do seu limitado meio é  grande, o adulto novo é perspicaz; mas pelos trinta anos, ás vezes  antes, vai embrutecendo, nada mais aprende, desinteressa-se de quase tudo que não seja da simples vida animal, retrocede rapidamente, pelos quarenta anos é boçal, descuidado, indiferente a quase tudo, um inútil.

Aceita-se o favor ou o serviço sempre, agradece se com palavras ás vezes e fica-se quite assim, não se procurará pagar com outro a não ser que se calcule haver nisso interesse futuro. A amizade é pouco frequente e pouca intensa, as circunstancias, que não os sentimentos, ligam e desligam os indivíduos. O amor... esse, coitado!... não ha amor pelos outros parentes nem pelo pai, o pouco dado à mãe diminui na inversa da idade, e ao sexo diferente ... se não é ,impulso sexual de pouca duração, é interesse, é negocio.

III Clima

Correntes atmosféricas. - Variando de intensidade e direcção pelas causas comuns a todos os lugares, são a maior parte das vezes brandas e mudam com uma constância notável, excepto em ocasião de trovoada em que percorrem então toda a rosa dos ventos. Estes, mais moderados na estação (169) do cacimbo do que na das chuvas, apresentam geralmente a mesma direcção ás mesmas horas todo o ano : a uma calma quase completa, segue o sudoeste muito fraco, que pouco a pouco vai aumentando de força, para depois abrandar e desaparecer, dando-se ou não um pequeno intervalo de calma até soprar o sueste ; o primeiro vem do mar, o segundo da terra; começa aquele pelas 10 ou 11 horas ,da manhã, este pelas 7 ou 8 da noite ; a calma constante é das 7 ou 8 da manhã ás 10 a variável pelas 6 da tarde. E' uma felicidade para os habitantes esta quase permanência de vento, especialmente na estação quente, o que bem sensível se torna quando, por ocasião de trovoada, cessa a corrente aérea e a atmosfera se torna sufocante.

 Uma trovoada não altera só a direcção do vento mas também a sua força e duração; aproximando-se a trovoada, refresca primeiro o vento que fazia, depois acalma quase de repente; quando ela está muito perto, começa o vento donde ela vem, enrija rapidamente, até adquirir força desusada, por dez a trinta minutos, repentinamente cessa, ao começar a chuva forte, e assim se conserva horas, de quando em quando alguma bafagem, para só voltar um dos dois triviais, à sua hora do costume e mais fraco do que de costume.

 O sudoeste é fresco, agradável sempre ; o sueste  a principio quente, vai sendo mais fresco a pouco e pouco, e é mesmo frio de madrugada. Se todo o vento é húmido quando muito choveu, fazem diferença quando não houve chuva; o do mar, sempre húmido e fresco, tempera a ardência do ar, facilita a respiração agrada ; o da terra, muito seco na estação quente, só não desagrada por facilitar a evaporação do suor que abundantemente escorre pela pele ; mas, bastante húmido na estação fresca, mais faz baixar a temperatura, desagradando.

Humidade. - Que é muito húmida Cabinda, tudo o prova; a ferrugem mostra-se com velocidade pasmosa, forma grossas camadas, ataca, coroe, destrói em pouco tempo qualquer objecto não protegido: um canivete de cabo de osso, que abandonei aberto uns quatro meses numa gaveta, criou tanta ferrugem nas porções
 

- a completar -



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